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Elogio Literário

Procura o elogio gratuito a várias expressões de Arte. Numa época tão dada a críticas, aqui só se pretende elogiar...

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Elogio Literário

05
Jun20

Sófocles - Rei Édipo

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Pode um homem fugir ao seu destino? A fatídica história de Édipo é marcante para o pensamento ocidental, na medida em que levanta questões sobre individualidade e destino.

A tragédia grega teve uma origem religiosa, com isso, transportava os seus personagens para situações de salvação e/ou castigo divino. Na data da peça de Sófocles, séc. V a.c., prevalecia a religião politeísta – a crença de que vários deuses tinham controle na actuação humana. A tragédia, enquanto género literário, surge após a epopeia, foi uma forma de evolução, o que a epopeia contava, a tragédia mostrava.

Sófocles é o responsável no teatro grego de ter introduzido o 3º actor nas peças e também de ter criado a cenografia. As suas obras debruçavam-se sobre a acção e as personagens. Estas passaram a assumir o interesse nuclear na peça, além de darem nome às obras, tal como o Rei Édipo.

Esta tragédia reúne inúmeras características que o teatro grego continha e inicia-se com a ditosa mensagem dos deuses: o filho que o Rei Laio tivesse seria o causador da sua morte e casaria com a sua esposa, assim sendo, como solução, o Rei de Tebas manda matar o filho que nasceu de Jocasta, sua esposa. No entanto, Édipo sobrevive e acabará por ser adoptado pelo Rei de Corinto. Logo aqui embatemos numa das novidades que Sófocles acrescentou à tragédia, a peripécia – um conjunto de reviravoltas que ocorre na acção. O famigerado Édipo é o herói da peça e o centro do interesse, pensa, age e procura desesperadamente fugir ao seu destino – ditado por um oráculo obscuro e impreciso – no entanto, o que faz é aproximar-se dele. São dadas características psicológicas algo que, até à data, não tinha sido feito nas tragédias gregas, no fundo, as personagens humanizam-se e os espectadores são testemunhas das suas dores e ambições. Somos tentados a ter compaixão do protagonista - revela ser dotado de coragem e inteligência, verificado quando derrota a Esfinge que atormentava a região de Tebas, resolvendo um enigma e tornando-se assim Rei, casando com Jocasta.

Édipo apenas sabia o que estava destinado, não entendia as consequências do seu esforço. É uma simples “marioneta” na determinação dos deuses - que têm o futuro dos indivíduos nas suas mãos e jogam com ele a seu belo prazer. O homem nas tragédias gregas era representado como instável e efémero, ao contrário dos deuses que eram perenes e serenos. Assim, Édipo procurava o seu próprio caminho, a sua individualidade, no entanto, o que a peça revela é a inevitabilidade de fugir à vontade divina. O destino como prova da ignorância humana. Apesar da nobreza e dignidade do Rei Édipo, a ameaça constante do horror alerta para que o desastre tenha de acontecer (golpe de teatro) e acontece quando existe o reconhecimento do seu erro.

Hoje a leitura que temos de justiça diz-nos que Édipo não seria o responsável por tudo o que lhe aconteceu, os acontecimentos terríveis na peça atingem o protagonista como uma doença que não se pode controlar. Na antiga visão grega o mundo era harmonioso, tendo em conta a cosmogonia existente no universo, com isso, as peripécias narradas na obra colocariam em causa essa mesma harmonia, poderiam então os deuses representar a pureza harmónica do universo com actos tão cruéis? As resposta a esta questão arrastou o pensamento para os meandros da filosofia.

É importante reunir o “xadrez” familiar de Édipo e conhecer a maldição dos Labdácidas para entender que o seu destino já estava escrito pelos seus antepassados. Nos dias actuais é fácil o ser humano achar-se dono de si próprio: condutor exemplar do seu trajecto, vencedor iminente da sorte, senhor dos novos mundos, crente na ciência, única verdade imaculada. Seremos donos de onde nascemos?

A sabedoria dos gregos ajudam a entender as arbitrariedades do destino e aceitá-las não como derrota mas como interpretação e conhecimento da nossa realidade. Acolher este ideal pode ser um apelo a desfrutar do prazer que cada vida pode conter no seu âmago, aceitar os refluxos da vida sem nos perdermos em lutas vãs. A cegueira nesta peça é uma certa metáfora a todas as vidas cegas que não querem ver a realidade, tal como ela nos é demonstrada.

Por: Bruno Rosa Gonçalves