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Elogio Literário

Procura o elogio gratuito a várias expressões de Arte. Numa época tão dada a críticas, aqui só se pretende elogiar...

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Elogio Literário

29
Mai20

Petrónio - Satyricon

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Consta-se que Satyricon foi o primeiro romance da história. Muitos teóricos literários, definem-no como um proto-romance – um género de embrião daquilo que viria a ser o género de romance tal como o conhecemos. Romance ou proto-romance, o certo é que a obra, escrita algures no século I, provavelmente na era de Nero, tornou-se um marco na literatura ocidental por ter desenvolvido a prosa elevando-a a um novo estilo estético-discursivo. Podemos, com isso admitir que Petrónio viveu à frente do seu tempo, uma vez que inaugurou um género estilístico que é comum na contemporaneidade.

Satyricon significa “sátiros” ou “livro dos sátiros”, o que compromete a narrativa numa forte envolvente social, expondo a vida romana em plena prosperidade imperial. Os excessos do império onde abundam: a exuberância dos banquetes, a sedenta vontade de riqueza material, a consumação dos prazeres priápicos, a fé num reconhecimento póstumo, enfim, uma credibilidade de que o metal comprava a felicidade.

No momento da obra, ainda não existia a crença cristã - a visão monoteísta, o pecado mortal, a ressurreição da alma, ascende apenas a vivência pagã – presença contínua de vários deuses (tradição politeísta) que castigam e defendem; ligação ao mito como explicação dos fenómenos naturais, cada uma das personagens vive de acordo com predisposições lascivas, o que torna possível uma abertura aos prazeres. Do ponto de vista filosófico, verifica-se uma tendência epicurista na abordagem, tendo como base a satisfação do corpo, claramente perceptível no Festim de Trimalquião, onde somos levados a entender os luxos exibidos por um liberto “Ai de nós miseráveis, que todo o homúnculo nada é! / Assim ficaremos todos mal, mal o Orco nos arrastar. / Por isso, toca a viver, enquanto boa vida houver”.

Encólpio – narrador; Ascilto, seu amante e Gíton, um servo adolescente são as três personagens principais. Vivem um triângulo amoroso - num claro sinal dos tempos pagãos – amam, traem, cobiçam, desconfiam, sofrem, revelam características elementares de qualquer ser humano. O seu percurso não tem um fim, não existe um objectivo claro e definido, apenas vivem e simbolizam isso mesmo. Trimalquião (personagem central no fragmento Festim de Trimalquião) é o exemplo de quem, por força de várias circunstâncias, escalou no estrato social romano, de escravo passou a senhor. Representa toda a grandeza e arrogância que esse trajecto pode apresentar, não olha a meios para conseguir o prazer carnal. Exibe banquetes com as iguarias mais exuberantes que poderiam ser vistas e transporta no corpo os bens materiais mais invejados, de um modo geral, acha-se capaz de comprar reconhecimento.

Nas acusações feitas ao longo da obra detectamos uma sociedade putrefacta quanto aos seus valores e princípios, como deixa bem claro no início da obra “eu penso que os jovens, ao frequentarem a escola, se tornam parvos de todo, porque não discutem nem vêem nenhum dos problemas da realidade quotidiana...”, “...uma vez corrompidas as boas regras da eloquência, logo ela ficou queda e muda”. A poesia na personagem de Eumolpo personifica a arte retórica que, simbolicamente numa das cenas, é apedrejada e detestada pela maioria. Poeta esse que, num naufrágio continua a compor versos, mesmo perante a iminência da morte, numa imagem daquilo que significa a transcendência da arte “Deixem-me acabar esta frase; está encravado o poema na fase final”.

A visão de Petrónio vai para além da ridicularização social e da acusação de vícios, alcança também um tipo de consciência que permite o benefício da dúvida perante o outro, um género de pensamento que nos coloca no lugar do outro. Evidência representada por Encólpio quando observa um cadáver ondulando no mar após um naufrágio “A este quem sabe, nalgum lugar da terra, o está aguardando a mulher, posta em sossego, quem sabe se um filho, desconhecedor da tempestade, ou então um pai; em todo o caso, alguma pessoa deixou, a quem, ao partir, deu um beijo”. Na mesma cena, após reconhecer o corpo de um seu inimigo, o mesmo Encólpio coloca em causa a tenacidade do ser humano, num discurso que Shakespeare, séculos mais tarde, soube muito bem aproveitar na peça Hamlet: “Onde está agora a tua fúria, onde está a tua força? Ora aí te encontras à mercê dos peixes e dos animais, tu que ainda à pouco te gabavas da potência do teu império, e de um barco tão grande não possuis, como náufrago, uma tábua sequer”.

Como Delfim F. Leão indica Satyricon “faz de Petrónio, quase vinte séculos volvidos sobre a sua morte, um dos autores mais interessantes e modernos que a Antiguidade nos legou”.

Por: Bruno Rosa Gonçalves

 

 

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