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Elogio Literário

Procura o elogio gratuito a várias expressões de Arte. Numa época tão dada a críticas, aqui só se pretende elogiar...

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Elogio Literário

05
Set20

Nathaniel Hawthorne - A Letra Encarnada

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Quando as portas da prisão se abrem e a acusada Hester Prynne delas sai, o narrador refere-se ao espaço envolvente com a seguinte descrição: “Em frente deste feio edifício, e entre ele e o centro da rua, estava um espaço coberto de erva, de ervas ruins, daninhas e desagradáveis à vista, que evidentemente tinham achado qualquer coisa de seu no solo que tão cedo tinha produzido a flor negra de uma sociedade civilizada, uma cadeia. Mas de um lado da entrada, e enraizada quase no limiar, havia uma roseira brava, coberta, neste mês de Junho, de suas flores delicadas, que pareciam oferecer a sua fragrância e beleza frágil ao preso que entrava, e ao criminoso condenado quando saía para a morte, como a provar-lhe que o coração profundo da Natureza sabia ainda sorrir-lhes e ter por eles compaixão”. Um edifício repugnante que serve condenados e almas perdidas, que traduz a falha social e os desvios humanos; as ervas daninhas como revestimento do espaço envolvente, como as almas que participam na permanência dos costumes sem nunca os molestar; e uma roseira brava, lúcida, delicada e luminosa. O velho mundo – a cadeia antiga, construída noutros tempos, antiquada em relação à época moderna, - que contrasta com o “Novo Mundo” - ao mundo da acção que se move para as portas da prisão para delas ver sair Hester Prynne, condenada por adultério. Roger Chillingworth é a figura que paira ao longo da narrativa como sendo a sombra do conservadorismo, sempre presente e sempre velha. Hester é a roseira brava que emerge no meio de tantas ervas daninhas, se quisermos, a letra encarnada, bordada no seu peito, é a única luz que flui num tempo em que o puritanismo predominava e apagava qualquer fogo. Entenda-se fogo por amor ou qualquer outra intumescência emocional. Para vilipêndio dos presentes, a mulher adúltera caminha até ao cadafalso onde terá a sua sentença.

Uma “letra encarnada” como que “impressa na carne” é a ferida que a protagonista transporta, dessa ferida nasceu uma filha, Pearl, filha do mal = pecado. O pecado como desígnio e sentença das almas superiormente moralizadas. Hester, cidadã de Boston, pecadora, tal como Eva no Paraíso. Na obra transparece uma mensagem de esperança e redenção “aos olhos da Pureza infinita, todos somos igualmente pecadores”. Hester, como “profetiza predestinada”, que faz mover o velho mundo conservador e castigador, entrega-o às questões do novo: “porque sou tão infeliz?” abrindo assim as almas à escuta do coração.

A obra é publicada em 1850 e, tendo em conta os caminhos que a literatura na segunda metade desse século tomou, é possível Edgar Allan Poe e Charles Baudelaire terem lido esta obra e daí retirarem alguns elementos que enriqueceram a sua notoriedade literária. Veja-se a sinestesia presente na representação que Pearl tem para a sua mãe – por um lado é o fruto de amor verdadeiro e motivo de ternura, por outro, uma criatura amaldiçoada, que transporta em si o mal e o pecado. Pearl e o bordado no peito de Hester, unificam-se no mesmo significado. O amor, mesmo verdadeiro, é condenável e motivo de escárnio. Estas especificidades na obra de Hawthorne encontram-se mais tarde junto da geração simbolista.

Uma das grandes riquezas que encontramos na literatura é a capacidade que a linguagem possui no encontro com as nossas emoções. Na Letra Encarnada, temos um bom exemplo dessa identificação com o íntimo colectivo americano. É como a dor no peito que o padre Dimmesdale continuamente sente, ou como o sinal que Hester traz sempre consigo. Se olharmos para a sociedade americana de hoje descobrimos alguns sinais de aproximação ao puritanismo descrito no livro: os escândalos sexuais recorrentes, as descriminações e histerias étnicas, a mistura tóxica do belo com o gosto e de autor com a obra. Atente-se na passagem de Hawthorne sobre o patriotismo americano na figura da sua águia “com a costumada incerteza de génio que caracteriza esta pobre ave, parece ela, pela ferocidade do bico e do olhar, e a atitude agressiva geral, ameaçar de mal a comunidade inofensiva, e sobretudo avisar todos os cidadãos receosos que não entrem no edifício que suas asas abertas cobrem. Por feroz, porém, que ela pareça, há muita gente que está neste mesmo momento pensando em acolher-se sob a sua asa federal, imaginando que o seu seio tem a macieza e a comodidade de uma almofada de penas. Mas ela pouca brandura mostra, até no melhor dos seus modos, e mais tarde ou mais cedo – cedo, as mais das vezes, antes que tarde – costuma afastar os seus filhos com um arranhão da sua garra, um golpe do seu bico, ou uma ferida rasgada das suas setas farpadas”.

Por: Bruno Rosa Gonçalves