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Elogio Literário

Procura o elogio gratuito a várias expressões de Arte. Numa época tão dada a críticas, aqui só se pretende elogiar...

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Elogio Literário

17
Abr20

Lúcio Aneu Séneca - Cartas a Lucílio

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Como é que um livro escrito nos primeiros anos da era cristã continua a ser actual XX séculos depois? A resposta está na sua leitura.

Lúcio Aneo Séneca viveu no século I d.C. em pleno domínio romano, foi tutor de Nero, personagem essa que ordenou a sua morte. É considerado o expoente máximo da filosofia estóica romana, dizia que a filosofia deve promover a acção e não a argúcia, o que conduzia o homem à prática constante da filosofia como lema de vida. A concepção estóica de Séneca tinha uma forte matriz religiosa, tendo isto que ver com a época, onde o cristianismo ganhava dimensão. Alguns historiadores defendem até existir uma certa ligação entre as epístolas trocadas com o seu discípulo Lucílio e os textos que estiveram na origem da Bíblia.

Esta obra reúne 124 cartas escritas ao seu discípulo Lucílio, com a procura da sua total conversão aos princípios estóicos. Cada uma das cartas apresenta um registo sábio do seu autor, na medida em que reflete os ensinamentos estóicos no contexto vivencial. Através disso distingue-se o tom sentencioso, conselheiro e provocador com a finalidade clara de empolgar o seu correspondente a mudanças nos seus comportamentos e hábitos quotidianos.

Logo na primeira carta temos uma premissa importante ao pensamento estóico “podes indicar-me alguém que dê o justo valor ao tempo aproveite bem o seu dia e pense que diariamente morre um pouco?”. Está lançado o engodo que leva o leitor numa odisseia estóica, passo a redundância com a doutrina do autor! Que pensamento interessante este, pensar que todos os dias morremos um pouco. Que todos os dias estamos mais mortos. Daqui para a frente a obra debruça-se sobre quase tudo e esta retórica permanece intacta: o equilíbrio entre vida, morte, tempo, felicidade e sabedoria.

Todo o livro é percorrido por uma torrente aforística - “Nada nos pertence, Lucílio, só o tempo é mesmo nosso” (carta 1) “O nosso mal não vem do exterior, está dentro de nós” (c. 49) “Sabes em que consiste a liberdade? Em não ser escravo de nada” (c.51) “a sabedoria é um estado constante, não passível de qualquer incremento” (c.79) “a filosofia e a virtude são duas coisas inseparáveis” (c.89) “a felicidade não é mais do que a segurança e a tranquilidade permanentes” (c.92) “quem sofre antes do tempo, sofre mais do que o devido” (c.98) “é um bem aquilo que só um indivíduo bom pode possuir” (c.117) – Estes lemas, escritos à imagem das sentenças morais pré-socráticas (p.e. Tales de Mileto que disse “Conhece-te a ti mesmo”) apelam à reflexão, à dúvida e, até mesmo, à desconstrução da realidade. Existe uma necessidade de perturbar o estado normal de Lucílio (leitor) e obrigá-lo a pensar sobre a sua existência, no modo como interpreta os seus sentidos.

Na carta 95 Lucílio é alertado de que “uma acção não pode ser correcta se não for correcta a vontade, pois é desta que provém a acção. Também a vontade nunca será correcta se não for correcto o carácter, portanto é deste que provém a vontade. Finalmente, o carácter não poderá atingir a perfeição se não compreender as leis que regem a totalidade da vida nem investigar qual o juízo correcto a fazer sobre cada coisa, em suma, se não aferir todas as coisas pela verdade”. Séculos mais tarde, Henry David Thoreau escreveu “mais do que amor, do que dinheiro, do que fé, do que fama, do que justiça, dêem-me a verdade”. A verdade como princípio, não há acção, não há vontade, não há carácter sem se buscar primeiro a verdade. Autenticidade esta dura de alcançar, que só prova que o âmago estóico “não era para fracos”, tal como refere J. A. Segurado e Campos.

O apelo constante ao conhecimento individual e o esforço na procura da implementação dos ensinamentos em actos corpóreos são, para nós, seres do século XXI, uma demanda quase desumana. O leitor pode ser levado a um estado perverso, por um lado, reconhece a sabedoria na tese do filósofo romano, sendo levado a assumir culpa dos próprios hábitos, por outro, entende a dificuldade de despir a pele humana de que é revestido. Os vícios que Séneca aponta nas várias missivas desviam o caminho da virtude – ideal máximo da perfeição humana.

Apesar dos séculos que nos afastam da obra, há uma certa ironia embaraçosa em relação à actualidade perturbante das réplicas “Os afazeres não andam atrás de alguém: os homens é que se agarram aos afazeres, entendendo as suas opções como sinónimo de felicidade” (c.106) Ainda hoje, um filósofo se debate com este tema.

A doutrina estóica acrescenta ao indivíduo um carácter consciencioso onde nada deve estar para além de si próprio. Esta noção torna as Cartas a Lucílio urgentes no século XXI – o mundo de imagens infinitas, do qual fazemos parte e somos promotores da sua aceleração, pois confronta-nos com a necessidade de reflectir sobre a nossa efémera presença, e daí extrairmos a nossa natureza.