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Elogio Literário

Procura o elogio gratuito a várias expressões de Arte. Numa época tão dada a críticas, aqui só se pretende elogiar...

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Elogio Literário

15
Nov20

Julio Cortázar - Todos os fogos o fogo

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Numa auto-estrada que liga Fontainebleau a Paris, devido a um congestionamento, todos os condutores que regressam às suas casas vêem-se obrigados a permanecer na estrada, durante horas, dias, semanas... Durante essa desafortunada espera os motoristas enfrentam um conjunto de privações e desgraças expectáveis a este cenário caótico: fome, calor, frio, enfraquecem, morrem. Deste modo, organizam-se de forma a criar uma espécie de vários “estados”, com líderes que tentam garantir as necessidades básicas dos seus grupos. Há lutas, paixões, desconfianças, enfim, tudo o que existe no dia-a-dia das nossas vidas.

Este conto “A Auto-estrada do sul” é um excelente cartão de visita da obra do argentino Julio Cortázar. A mistura da realidade e da fantasia num cruzamento inesperado que agoniza o leitor perante a necessidade de atribuir fantasia a algo que, de tão caótico, não se poderia esperar. Não interessa o motivo da paragem na auto-estrada, talvez um avião que embateu em vários veículos, ou um enorme acidente em cadeia, não se sabe, o cenário é claramentekafkiano, desenvolve-se então um microcosmo, onde a única preocupação é sobreviver. Cortázar, genialmente, torna um simples regresso a casa, após um passeio veraniano numa luta pela sobrevivência, do inesperado surge o caos. Esta desconstrução ultrapassa a mera narrativa, duas forças surgem nas entrelinhas: o movimento e a paragem. A rotina é movimento, percorremos estradas desligados do que nos rodeiam, apenas temos a função de chegar a um objectivo, nesses instantes em que nos movemos não sentimos, não pensamos, actuamos como autómatos que executam a sua função passiva de chegar a algum lado. É então que se pára, quando cessa o movimento, a vida adquire outro ritmo, n' “A auto-estrada do Sul”, a paragem forçada por algo externo, leva os motoristas a estreitar laços e comunicarem, conhecendo-se por fim, a paragem como revelação humana. No fim do conto novamente movimento, tudo volta ao normal, os carros voltam a deslocar-se, as relações desmoronam “corria-se a oitenta quilómetros em relação à luzes que aumentavam mais e mais, sem que já se soubesse porquê tanta pressa, porquê esta corrida na noite entre carros desconhecidos onde ninguém sabia nada dos outros, onde toda a gente olhava fixamente para a frente, só para a frente”. Fica-se com a sensação de que apesar do aparato e da indeterminação de tempo em relação à exactidão do período de paragem no trânsito, essa experiência é tomada por um dos motoristas como o grande significado da vida, a convivência entre humanos, depois vem novamente o movimento que interrompe tudo isso e nos guia para a frente.

Em “A saúde dos enfermos”, deparamo-nos com uma família que protege a sua matriarca das notícias mais desagradáveis como a morte do seu filho Alejandro. Para isso, dão-lhe vida, inventando histórias para alimentar a farsa e proteger a sua saúde vulnerável. O conto avança no limbo de se descobrir ou não a verdade, a família vive uma “piedosa comédia”, a mentira serve como anestésico útil da dor. Sobre a questão da verdade, também se ocupa o conto “Instruções para John Howell”, um espetador é convidado a participar na peça que estava a assistir, dando-lhe continuidade. Apesar de contrariado é obrigado a entrar e aí a realidade funde-se com a ficção.

O fluxo de consciência está presente no conto “Menina Cora” onde nos surgem cinco narradores diferentes que desenvolvem a narrativa. Num hospital, um jovem que vai ser operado, sente uma atracção por uma das enfermeiras que o trata, as suas sensações mais íntimas são expostas de uma forma muito realista, em cada passagem é revelado o pensamento de cada uma das personagens. O autor recorre ao interseccionismo, para nos oferecer um perfeito conhecimento de todos os intervenientes, como se entrássemos nas suas mentes e reconhecêssemos as suas intenções, por outro lado, o conto consegue destacar um género de jogo entre aparência e realidade.

A ilha ao meio-dia” é a história de Marini, um comissário de bordo, que a dada altura nos seus voos, descobre uma ilha no meio do mediterrâneo em forma de tartaruga, na qual sente um desejo profundo de a visitar. O meio-dia é a hora em que avista sempre a ilha dos céus e essa obsessão leva-o a procurá-la, despertando nele uma inércia a tudo o que o envolve, nutrindo unicamente o encanto de visitar a pacata ilha piscatória. Marini, nome originário do mar, trabalha nos céus e descobre a terra em forma de animal, tudo isto ao meio dia, como medida temporal do equilíbrio. “A ilha ao meio-dia” reflete sobre as pretensões ao desconhecido e à liberdade, o destino, como elemento circunstancial e a solidão, necessidade última do ser humano de encontrar a paz consigo mesmo.

No conto que dá nome ao livro “Todos os fogos o fogo” seguimos duas histórias em simultâneo que irão desembocar num desenlace semelhante, uma na Roma Antiga, outra numa Paris contemporânea. O amor como sentimento fervoroso, catalisador de fogos nas emoções de quem os sente é tragicamente interpretado de forma literal.

Che Guevara é retratado em “A Reunião”, partindo de uma espécie de diário confessional, seguimos os pensamentos do guerrilheiro argentino numa etapa da revolução cubana. O conto diferencia-se dos outros que preenchem o livro, no entanto faz um reflexo profundo aos valores da revolução e termina com uma certa esperança.

O outro céu” é o conto menos “mágico” e mais realista. O narrador de modo autodiegético relata o seu percurso pelas ruas de Paris numa existência dupla, por um lado assume uma vida ideal, com emprego na bolsa, noiva à medida, boa família, por outro, percorre as ruas sujas da cidade, por entre galerias manhosas, junto de prostitutas e vagabundos. Mais uma vez o jogo de aparências salta para primeiro plano, bem como, as nossas aspirações mais profundas que conspurcam a nossa alma. O céu é o mesmo que pode ser visto de diferentes lugares (perspectivas) o que o torna diferente.

Os contos de Cortázar são terrenos, tentadores e, quando menos se espera, chocantes de forma grotesca e mágica, com capacidade de derreter a percepção do leitor e até perturbar. Nos vários contos de “Todos os fogos o fogo” encontramos o melhor de Julio Cortázar, histórias curtas, realismo atropelado pelo insólito e inesperado, jogos de sensações e de temas, direcções implícitas, indeterminação do tempo, conjunto de características que fazem jus a um dos maiores expoentes do realismo mágico que o século XX teve.

Por: Bruno Rosa Gonçalves

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