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Elogio Literário

Procura o elogio gratuito a várias expressões de Arte. Numa época tão dada a críticas, aqui só se pretende elogiar...

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Elogio Literário

15
Mai20

Jonathan Swift - Singela Proposta e Outros Textos Satíricos

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Este pau singelo, que hoje diviso ingloriamente tombado naquele recanto esquecido, conheci-o em tempos num estado vicejante, em plena floresta; estava repleto de seiva, repleto de folhas e repleto de galhos; agora, todavia, em vão tenta a arte afanosa do homem rivalizar com a natureza” - assim começa a sátira Meditação Acerca de Uma Vassoura construída com o objectivo de ser lido a uma condessa londrina. Swift depois de realizar esta composição inseriu-a no interior de um livro de um certo Robert Boyle (autor célebre por obras morais da época) e, numa das leituras dessa obra que fazia regularmente à condessa, leu-a. Uma vassoura comparada ao homem “o que é o homem, dizei-me, senão uma criatura às avessas, com as faculdades animais perpetuamente às cavalitas do irracional”. Foi este “virar do avesso” que permitiu a Swift contornar com graça o desconforto que sentia em ser obrigado a ler autores que, no seu entendimento, eram menores. Olhar para o mundo real e desconstruí-lo, eis uma abordagem que permite o romper da trapaça, da ironia, da comédia, da crítica e do ridículo e que no fim nos permite olhar para nós próprios e rirmos dos nossos defeitos.

Nascido em Dublin, na segunda metade do século XVII, Jonathan Swift passou por uma infância atribulada e difícil, sendo por intermédio de William Temple (aristocrata inglês) que teve acesso, tanto a uma conveniente educação, como a uma proximidade de círculos literários. Este contacto inspirou-o a observar os preâmbulos literários de uma forma marcadamente mordaz.

A Batalha dos Livros foi criado com intuito de defesa a um ensaio de William Temple sobre o crédito que os livros antigos e modernos tiveram para a humanidade. Nesse texto, os autores modernos (finais de século XVII que atacaram o ensaio de Temple) são acusados de possuir “quando se trata de tecer especulações, uma maravilhosa agilidade, e não concebem cumes que a sua ligeireza não possa conquistar” e, vendo-se ofuscados pela sombra do cume do Monte Parnasso – local onde habitam os antigos e aspiram chegar os modernos – causada por tão elevada altitude, desafiam os seus habitantes para uma acérrima luta. A posição dos antigos nas estantes, apesar da sua “prudência, antiguidade e, acima de tudo, os seus grandes méritos, por comparação com os modernos” é vilmente contestada pelos jovens aspirantes que, através da sua leviandade, procuram esse espaço de influência. Nesta dura batalha livresca os antigos possuem nas suas fileiras de combate nomes das letras como Homero, Vergílio, Píndaro ou Esopo, por sua vez, os modernos são representados por algumas figuras da época que o autor irlandês vulgariza, com mestria, neste petulante confronto. A dada altura do duelo os modernos tem necessidade de recorrer aos seus deuses, é quando visitam a Crítica (filha da Ignorância e do Orgulho, irmã da Opinião e mãe do Ruído, Insolência, Estupidez, Vaidade, Dogmatismo, Pedantismo e Rudeza) que os protege “Sou eu que confiro a sabedoria aos petizes e aos idiotas; graças a mim os filhos tornam-se mais sábios do que os pais; os elegantes tornam-se políticos, e os colegiais, árbitros em matéria filosófica; graças a mim, os sofistas debatem e extraem conclusões em domínios impenetráveis do saber; e os gracejadores dos botequins, instigados por mim, são capazes de corrigir o estilo de um autor e de pôr a nu os seus erros mais insignificantes, em compreenderem uma só sílaba da sua escrita ou da sua linguagem; graças a mim, os jovens estúpidos dissipam o seu bom senso, tal como fazem ao seu património, antes mesmo de lhes chegar às mãos”. A sagacidade do autor irlandês não tem limites e coloca à superfície todas as percepções dos modernos do seu tempo, em relação à cultura erudita – antiguidade clássica. A fábula da aranha e da abelha vinca os dois extremos da disputa no sentido em que a abelha (antigos) – transporta “luz” e doçura a toda a humanidade, enquanto que a aranha (modernos) – é o símbolo da técnica, que se debruça unicamente com a sua individualidade.

Apesar de cónego, Jonathan Swift não deixou de usar a religião como elemento satírico, entendido na Argumentação Contra a Abolição do Cristianismo na Inglaterra e Dissertação Relativa à Estimulação Mecânica do Espírito, expondo os seus vícios e fanatismo. “Quem, vendo um mortal insignificante a discursar monocordicamente, a divagar, a debitar disparates diante de uma multidão, poderá achar plausível que tanto o Céu como o Inferno se dêem ao trabalho de influenciar ou inspeccionar a tarefa a que ele se entrega?”

A Singela Proposta serviu para o autor aumentar a lista de inimigos públicos com os seus trabalhos literários e, esta sátira é altamente corrosiva na acusação que faz à pobreza material e de espírito com que Dublin se deparava na primeira metade do século XVIII.

“Todos quantos percorrem esta grandiosa cidade de Dublin... se sentem invadidos pela melancolia ao verem as ruas, as estradas e as portas dos casebres apinhadas de mendigos do sexo feminino, pobres mulheres seguidas por três, quatro ou seis crianças, todas vestidas de andrajos e a importunarem quem passa com a súplica de uma esmola” - como solução final, para toda esta angústia citadina é proposto então que as crianças dos mendigos sirvam de refeição aos restantes habitantes. A proposta vai ao pormenor de que apenas a partir do primeiro ano é viável o comércio da carne juvenil, visto que até esse período não existe despesa para os pais. Com isto, seriam ultrapassados vários problemas sociais: fome, mendicidade, pobreza e marginalidade, estabelecendo assim a harmonia e prosperidade entre os cidadãos.

Esta distopia prende o leitor com o absurdo do pensamento humano e das suas prioridades em relação aos problemas com que se depara. Uma tão inconcebível proposta, sob o ponto de vista humano, pretende olhar para a miserabilidade social e expor as suas maiores fraquezas e necessidades. A Singela Proposta é nos servida fria e tímida, alerta-nos para as preocupações verdadeiras do ser humano, das suas aflições e ambições urgentes, somos tentados a intervir, auxiliar, e, quando já estamos ansiosos por uma solução e fartos dos enfados quotidianos, ela surge. O que esta sátira estabelece é uma incrível proximidade entre a compreensão e a maldade.

É um exercício extraordinário ler Jonathan Swift no século XXI, os desvios dos modernos perante os ensinamentos dos antigos, os fanatismos constantes e as posições absurdas a que a contemporaneidade por vezes chega, tornam estas sátiras tão próximas da realidade.

Por: Bruno Rosa Gonçalves