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Elogio Literário

Procura o elogio gratuito a várias expressões de Arte. Numa época tão dada a críticas, aqui só se pretende elogiar...

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Elogio Literário

10
Abr20

Jackson Pollock - Nº30

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Com o fim da Segunda Guerra Mundial e a consequente fuga de muitos artistas europeus para os Estados Unidos da América, Nova Iorque tornou-se a cidade mais importante ao nível artístico. Vários artistas pós-guerra começaram a surgir com formas de representação estética arrojada, entre os quais, Jackson Pollock. 

O quadro Nº 30, pintado no ano de 1950 por Jackson Pollock, desafia toda a pintura, uma vez que abdica de representar objectos através da imitação, permite ao autor expressar-se livremente de forma espontânea o que torna assim a obra não-representacional (expressionismo abstrato). Este quadro resulta da técnica action painting (pintura de acção), onde a tela é colocada no chão e o pintor deixa cair pingos ou salpicos de modo a criar padrões desconexos e irregulares. Esta técnica foi a mais usada pelo pintor americano, dando a sensação que o autor faz parte do próprio quadro, pois envolve-se com ele durante a sua composição. Nessa execução o pintor não conseguia prever como ia ser o resultado final da obra, daí ser uma pintura de acção, realizada normalmente em pouco tempo.  

O mundo depois da Guerra já não podia ser o mesmo e depois da destruição de cidades, do holocausto, da bomba atómica ou da destruição de obras de arte por todo o Ocidente, a arte de representar a realidade através do desenho perdia o seu entusiasmo. Então os artistas utilizavam o abstrato para se expressarem individualmente com um descompromisso para com ideologias ou preconceitos. Pollock defendia que o autor não necessitava de um tema que fosse exterior a si mesmo e apelava aos observadores que olhassem um quadro sem preconceitos para que consigam perceber algo que o quadro pode transmitir. O que o quadro Nº 30 exprime é uma fuga às normas comuns da ordenação, da aparência, da natureza e da realidade, e leva-nos a encontrar tanto a desordem visual de um mundo irreal, como a nossa própria emoção em relação à imagem que vemos. Na tela é exibido um conjunto de linhas e manchas de cor desordenadas, podendo indiciar alguma tentativa de apresentar formas figurativas, algo que cada apreciador pode fazer à sua imagem, não existe assim qualquer pretensão de forma, mas há uma certa harmonia entre as “pinceladas”.

Da mesma forma que o autor se sentia perdido no mundo moderno à procura das suas formas individuais onde traduzisse a sua arte, o receptor da obra tem igualmente este sentimento perante a proeminência do caos visual exibido. O principal conceito de produção artística do Nº30 é a subjectividade do artista revelado através do seu expressionismo. Existiu na sua realização o abandono das regras e apenas a liberdade artística inflete expressão ao sentimento de vida moderna – cada indivíduo possui valores individuais e a sua percepção é única e por isso diferente. O nome da obra Nº30, foi dado de acordo com a ordem de conclusão, não existindo nenhuma ligação entre a pintura e o seu título, sendo este outro aspecto comum ao conceito estético do artista – de que as representações não significam nada em específico e o apreciador da obra retira dela o que desejar.

Ao observar esta pintura o público torna-se uma parte integrante da obra como se fosse um segundo artista, interpretando-a à sua imagem e atribuindo o valor artístico à obra, o que a torna contemporânea e intemporal dado a essa análise que podemos ter em qualquer época. O público ao olhar a peça e ver que ela não se compara a nada antes visto e que, aparentemente não tem qualquer conteúdo nem género, é conduzido à reflexão, à procura de perspectiva e ao reconhecimento de si mesmo e do mundo. Assim, independentemente se as sensações artísticas geradas pela interpretação da obra são boas ou más, o efeito final da obra é concluído, na medida em que faz com que o público se questione a fim de procurar a sua maneira de ver. Este, é o principal objectivo de Pollock com o quadro Nº30, pois para ele “o mais importante não era a mensagem que o quadro transmitia”. 

Tal como diz Graham “não devemos pensar na representação como a única, ou mesmo a principal, finalidade da arte visual, mas como um meio proeminente” – significa isto que, tanto uma obra de Diego Velázquez, que procura mostrar a perfeição de uma realidade visual, como uma obra de Wassily Kandinsky, que não representa nada concreto, podem ser igualmente valorosas porque na arte não interessa só a imagem visual, mas a finalidade que a obra na sua génese pretende transmitir.

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Por: Bruno Rosa Gonçalves