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Elogio Literário

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Elogio Literário

27
Jun20

Hugo Von Hofmannsthal - A Carta De Lorde Chandos

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Hugo Von Hofmannsthal foi um intelectual austríaco que, além de compor poemas e outros escritos literários, também escreveu libretos para óperas do conhecido músico Richard Strauss. Conviveu de perto com a vida boémia e intelectual da sua cidade (Viena) tendo conhecido nomes como Hermann Bahr, Stefan George, Rainer Maria Rilke, Stefan Zweig e Karl Krauss. É associado à corrente artística fin de siècle, cujos autores influenciavam com as suas ideias a chegada de um novo século.

Por volta de 1901, o autor austríaco sofre uma crise intelectual que o faz desligar-se das letras e da carreira académica e é neste ambiente que nasce a sua obra A Carta a Lord Chandos. Apesar de exprimir o estado de alma do seu autor, a carta é ficcional, escrita por um tal de Philipp, Lord Chandos, nobre isabelino ao conhecido pensador inglês Francis Bacon. Esta epístola antecipa a nova corrente artística que o século XX acrescentou: modernismo.

A missiva apresenta um tom confessional onde Lord Chandos responde a Francis Bacon explicando as razões que o levaram a afastar-se da literatura durante os últimos anos. Tal como a sua personagem, Hofmannsthal sentia-se ausente e perdido no seu tempo, não reconhecendo na literatura qualquer forma de expressão que contivesse as palavras certas “perdi por completo a faculdade de pensar ou de falar consequentemente sobre o que quer que seja”. Os seus desejos e objectivos “dançavam todos à sua frente como mosquitos melancólicos num muro sombrio onde o sol forte dos dias felizes já não bate”. Para Lord Chandos, os princípios da harmonia estóica e epicurista apesar “do jogo maravilhoso das suas relações” já não bastavam para um profundo encontro consigo próprio. “Tudo se me descompunha em fragmentos que, por sua vez se fragmentavam, e nada se deixava possuir por um conceito” A fragmentação do sujeito, uma das principais características que irá caracterizar a cultura mundial no novo século que se iniciava. Através destas múltiplas interpretações de si próprio o nobre inglês chegaria ao seu desejo mais profundo “Nosce te ipsum” [Conhece-te a ti próprio] – seguindo este adágio de Tales de Mileto, interpretaria o mundo material e espiritual como uma unidade em si mesma.

As palavras tornaram-se “falsas” e “inconsistentes”, já não serviam para explicar o sentido do mundo, a linguagem percorria sentidos unívocos e tornava-se vazia. O espírito de Chandos “forçava-se a ver com uma proximidade inquietante” e com isso não conseguir descrever as várias leituras que encontrava para o mesmo objecto, pois este poderia adquirir múltiplas percepções.

Hofmannsthal, mergulhado na sua personagem, usa a linguagem para descrever o seu mutismo. Nesse exercício incorrigível de olhar para dentro, as palavras ainda não existiam e, as que existiam também elas possuíam outros significados. A partir desse momento muitos outros autores se lançaram nesse desafio, de olhar “à lupa” o homem e procurar desvendar um pouco mais de verdade, para além da aparência.

Olhando para o ano em que foi escrita esta obra (1902) e conhecendo as realizações artísticas que se seguiram, é suposto acreditar que o artista austríaco construiu uma espécie de preâmbulo a todas as décadas seguintes. Consegue-se reconhecer as múltiplas interpretações de que um objecto pode conter na Fonte de Marcel Duchamp (1917); da fragmentação do sujeito poético em vários poemas de Fernando Pessoa; do ponto de vista em simultâneo de objectos e formas no Violino e cântaro de George Braque (1910) ou da distorção da realidade no expressionismo alemão de início de século XX. Nada leva a crer que algum dos autores mencionados tenha alguma vez lido Hofmannsthal, no entanto, existem razões claras e de índole iniciática, que tornam o austríaco um dos pais da era modernista.

Por: Bruno Rosa Gonçalves

 

 

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