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Elogio Literário

Procura o elogio gratuito a várias expressões de Arte. Numa época tão dada a críticas, aqui só se pretende elogiar...

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Elogio Literário

03
Abr20

Honoré de Balzac - A Mulher de Trinta Anos

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“Uma mulher de trinta anos possui atractivos irresistíveis para um rapaz. Uma rapariga tem demasiadas ilusões, demasiada inexperiência e o sexo é grande cúmplice do seu amor, para que foi alvo, enquanto uma mulher conhece toda a extensão dos sacrifícios que tem a fazer. Uma é arrastada pela curiosidade, por seduções estranhas às do amor, a outra obedece a um sentimento consciencioso. Uma cede, a outra escolhe. Dotada de um saber quase sempre duramente pago por desgostos, dando-se a mulher experiente parece dar mais do que a si própria.” É assim que é descrita a mulher balzaquiana, definição que ganhou espaço a partir deste romance. Este elogio realça a mulher francesa do século XIX, hoje, uma mulher balzaquiana é simplesmente uma senhora madura, que já sobreviveu aos caprichos da juventude, como se fosse um título por ela recebido por ter ultrapassado alguns desgostos vividos. Então, balzaquiano é como o início de um novo patamar na vida.

O escritor francês Honoré de Balzac preconizou o realismo na literatura. Preocupou-se, ao longo das suas obras, em estudar vários temas da sociedade francesa, tais como, a família, a ascensão social, o dinheiro, as mulheres, os poderes da burguesia... O romance A Mulher de Trinta Anos insere-se na coleção A Comédia Humana e conta a história de Júlia – uma senhora que se casa com um general, vive uma paixão extraconjugal que se revela trágica e, por fim, arrebata o coração do jovem Carlos de Vandenesse.

Uma das características que esta obra realça é a capacidade do autor em arquitectar personagens modelo da sociedade francesa do século XIX. Logo no início do romance surge o pai de Júlia, viúvo, que tem a filha como a única mulher da sua vida, que cuida dele e de quem ele necessita. Este personagem antecipa, com o seu pessimismo e ciúme, o que vai acontecer a Júlia por esta optar por um amor quimérico “As raparigas sonham muitas vezes com uns seres nobres, encantadores, seres ideais, e criam fantasias quiméricas a respeito dos homens, dos sentimentos e do mundo; depois atribuem inocentemente a um homem as perfeições com que sonharam. Confiam nele. Amam no homem da sua escolha esse ente imaginário. Mais tarde, quando já não podem fugir à desgraça, o seu primeiro ídolo transforma-se num esqueleto odioso. Júlia, preferia que amasses um velho a amares um coronel! Se pudesses ver o que te sucederá daqui a dez anos, farias justiça à minha experiência.”

Outros exemplos do arquétipo social em Balzac é a marquesa de Listomére-Landon – uma tia vivida, desencantada, sem nenhum espanto perante a vida, com uma certa angústia por aquilo que não completou; Vítor – homem frio, general de exército, distante e indiferente; Carlos de Vandenesse – o jovem movido a paixões, curioso, imaturo e afectuoso. Grenville, por sua vez, traduz o lado mais romântico da obra – está sempre vivo nas recordações de Júlia, por ser o seu amor jamais esquecido e é também a peripécia mais trágica de toda a narrativa.

Se o reconhecimento e exaltação de beleza na mulher adulta é um dos motivos de leitura a reivindicação dos direitos femininos na sociedade é outra. Este tema é retratado no confronto de Júlia com o esposo - “O meu silêncio revela-lhe que tem em mim uma mulher cheia de indulgência, e que não lhe exige os sacrifícios a que as leis a condenam. Reflecti, chegando à conclusão de que os nosso papéis não são idênticos, e que só a mulher é predestinada para a desgraça. A minha virtude assenta em princípios firmes e fixos. Saberei ter uma vida irrepreensível, mas deixe-me viver” - Este “deixe-me viver” é quase como uma súplica da mulher às amarras do tempo em que vive.

Balzac deu um salto na literatura, tornou-a mais directa quando descreveu a realidade social, comprometida com o pensamento das suas personagens que alertam o leitor para os costumes, a hipocrisia social, valores de época e para um certo cepticismo. Estavam lançados os traços com que a literatura se desenhou anos posteriores (Flaubert, Dostoiévski, Proust, Eça de Queiroz...).

Por: Bruno Rosa Gonçalves

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