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Elogio Literário

Procura o elogio gratuito a várias expressões de Arte. Numa época tão dada a críticas, aqui só se pretende elogiar...

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Elogio Literário

08
Mai20

Eurípedes - Medeia

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À semelhança de outras obras de Eurípedes (As Bacantes, Alceste, Orestes), Medeia enquadra-se no subgénero trágico, género dramático que consagrou o seu autor como ousado para a época de reprodução (século V a.C.). As obras de Eurípedes tinham a característica de escandalizar o público através da violência que as suas cenas apresentavam, isso refletiu-se na incompreensão que o autor se sujeitou na sua época devido a esse mal-estar que provocava nos espetadores. Ora, apesar de no século V a.C. o público não estar realmente preparado para assistir a peças do género, fazendo com que Eurípedes não fosse tão apreciado como outros autores seus contemporâneos, tais como, Sófocles ou Ésquilo, a história fez com que se concedesse importância ao tragediógrafo, sendo o mais lido numa fase posterior à sua existência. 

As tragédias gregas tinham em comum o facto de irem buscar à mitologia a inspiração para as aventuras dos seus heróis. Medeia é uma personagem da mitologia grega, ligada à expedição dos Argonautas que reconquistaram o velo de ouro na Cólquida, permitindo a Jasão, seu esposo, ultrapassar os seus perigos. Estes e outros feitos de Medeia, ligados à mitologia são descritos no início da peça pela Ama que começa por indiciar o conflito que se vai desenrolar entre Medeia e Jasão. Medeia apresenta alguns elementos fundamentais da tragédia, desde logo, o terrível confronto entre Medeia e Jasão, fruto da paixão e consequente traição que terá a morte como consequência, sendo esse o clímax da peça e denominador comum numa representação trágica. O coro é uma advertência para o que vai suceder e preconiza o destino das personagens. Outro traço importante da tragédia euripidiana é de introduzir um certo psicologismo às personagens, permitindo-lhes um ligeiro afastamento à soberania dos deuses, algo completamente diferente de tudo o que se produzia na altura, vemos isso na perturbação da personagem Medeia entre vingar-se do marido e salvar os filhos. 

Na obra, Jasão com a ambição que tinha pelo reino de Corinto junta-se à filha do rei Creonte, traindo a mãe dos seus filhos, Medeia. Traída e abandonada por Jasão, Medeia, preenchida por um sofrimento e tristeza tal, procura vingança exprimindo o seu ódio contra o marido e contra todos que a traíram. A protagonista simboliza a expressão da mulher contra o preconceito e a exclusão que sofria na sociedade grega, traduzida na submissão ao homem e levada a acreditar na sua inferioridade “De quanto há aí dotado de vida e de razão, somos nós, mulheres, a mais mísera criatura”. Medeia recusa o papel de vítima e de dominação do homem e contraste com a característica comum atribuída à mulher, de possuir fragilidade emocional. A sua raiva movida contra o marido provoca a morte da princesa e do rei de Corinto, bem como, o infanticídio, por força do crime cometido por ela contra os seus próprios filhos, numa crueldade e fúria sem limites, aspeto marcante das tragédias de Eurípedes. No desfecho da peça damos conta de uma certa “irracionalidade” presente no teatro de Eurípedes, movido por algo que conduz a personagem a cometer um ato incompreensível e insensato. Apesar de num momento equacionar em não cometer tamanho crime, num acesso de raciocínio perante um desgosto que também a acompanhava “Para que hei-de eu, para afligir o pai deles com a sua desgraça, infligir a mim duas vezes os mesmos males?”, acaba por o perpetuar, permitindo à cólera ultrapassar a racionalidade libertando a vingança e preservando o fundamental que procura executar na sua obstinação – causar sofrimento aos seus inimigos, vingando a sua desgraça.

Eurípedes era acusado de misoginia tendo em conta alguma aversão em relação à forma como as mulheres eram vistas, sendo estas, muitas vezes representadas como traidoras e inferiores em relação ao homem. Esta misoginia pode ser identificada quando Medeia expõe uma qualidade identificada nas mulheres transmitindo que estas não conhecem as artes nobres, mas têm sabedoria na arquitetura do mal “Além de que nascemos mulheres para as ações nobres incapacíssimas, mas de todos os males artífices sapientíssimas”. Apesar de Jasão também contribuir para essa ideia “Deviam os mortais gerar os filhos de outra maneira, e não existir o sexo feminino. E assim não haveria mal para os homens”, a conclusão da peça representa o oposto, depositando na mulher um papel de força suprema capaz de superiorizar-se ao homem, permitindo assim um olhar crítico relativo à posição feminina. Tendo em conta que as peças eram realizadas para um público masculino, a exibição do poder da mulher causou uma certa novidade no teatro grego, permitindo ao público gerar alguma condescendência perante a angústia da protagonista.

Por: Bruno Rosa Gonçalves