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Elogio Literário

Procura o elogio gratuito a várias expressões de Arte. Numa época tão dada a críticas, aqui só se pretende elogiar...

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Elogio Literário

20
Dez20

Ernest Hemingway - O Adeus às Armas

 

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Os tempos eram realmente diferentes. Voluntário na Primeira Grande Guerra, jornalista na Guerra Civil Espanhola, quatro casamentos, polémicas várias, álcool, depressão, suicídio. Ernest Hemingway envolveu a sua história pessoal com os temas dos seus livros. A intimidade soube convergir com a ficção. A imensa experiência do autor merecia um narrador. Os homens e as mulheres que ocuparam os seus livros foram descritos com tanta realidade que quase se sente a sua carne em cada página. A verdade como forma de prosa, verdade que o americano conheceu. A propósito disso, numa entrevista sobre a dimensão da obra O Velho e o Mar o escritor defendeu a técnica do iceberg, na qual, um livro apenas esboça uma ponta de conhecimento do seu autor, existe uma imensidão de matéria escondida.

Tal como Frederick Henry, também Hemingway se alistou na Primeira Grande Guerra, tendo sido colocado na frente italiana como condutor de ambulâncias. Igualmente se apaixonou por uma enfermeira, durante um internamento causado por um ataque inimigo. Catherine Barkley, personagem do romance foi inspirada em Agnes Von Kurowsky, enfermeira real que fez pulsar o coração do escritor. O amor em tempos de guerra que o autor vivenciou. A história real termina com um desfecho doloroso – depois de regressar à América o autor espera por Agnes, afim de se casarem, a espera termina em desilusão, uma vez que, a enfermeira se tinha apaixonado por um oficial italiano. No romance o desfecho não é mais colorido. O autor reinterpreta a realidade dando um outro esboço à dor de um amor que termina. A crueldade, a tristeza, o desespero que habitam no mesmo espaço onde também há amor, tudo são sentimentos humanos. O fim da guerra como o “adeus” a tudo o que se passa no palco, tanto o amor como a vileza acabam. O título original dá espaço a esta interpretação A Farewell to Arms, arms traduzido tanto serve como armas ou braços.

A prosa de Hemingway é preenchida de longos discursos e de uma linguagem acessível, contudo há nas entrelinhas um universo de múltiplas interpretações que importa ao leitor estar atento afim de retirar maior beleza da obra. “... - Sim, e ser respeitado porque não? [padre]

- Não há razão para que não o seja! [Frederick Henry]

- Não importa, mas na minha terra aceita-se que um homem possa amar a Deus. Não é motivo de troça.

- Compreendo.

- Você compreende mas falta-lhe o amor de Deus.

- Sim, isso é verdade.

- Não tem realmente amor nenhum? - perguntou ele.

- Tenho medo dele às vezes, de noite.

- Devia amá-Lo.

- Não sou muito homem para amar.

- É – disse ele - , não diga que não! O que me contava acerca das suas noites... Isso não é amor, é só paixão e luxúria. Quando amamos desejamos fazer alguma coisa por aquilo que amamos. Deseja-mos sacrificar-nos, desejamos servir.

- Não amo.

- Há-de amar. Tenho a certeza! E então será feliz!

- Eu sou feliz. Sempre fui feliz!

- Isso é outra coisa. Não o poderá compreender antes de o sentir...”

O Adeus às Armas” eleva os valores fundamentais do homem desde a escassez de princípios, à ternura mais evidente, numa viagem por aquilo que de mais brutal ele pode construir. O autor guia-nos por caminhos tão reais que nos fazem sentir as acções de forma violenta e sincera. “Houve um grande clarão e os foguetões subiram, rebentaram, flutuaram, brancos, no ar, os morteiros ergueram-se e eu ouvi as granadas, tudo isto num momento, e então ouvi dizer alguém junto de mim: 'O Mamma mia! O mamma mia!' Fiz força, torci-me e consegui libertar as pernas, e pude voltar-lhe e tocar-lhe. Era Passini, e quando lhe toquei gritou. Tinha as pernas para o meu lado, e vi, nas alternativas de luz e sombra, que estavam ambas esmagadas acima dos joelhos; uma perna fora cortada, a outra estava apenas pressa pelos tendões e um pedaço das calças, e o couto crispava-se e torcia-se como se não estivesse separado. Passini mordeu o braço e gemeu 'O mamma mia! Oh, Jesus!' e depois disse 'Dio te salve, Maria! Dio te salve, Maria! Oh, Jesus, mata-me! Cristo, mata-me! Mamma mia, mamma mia! Maria, oh Santa virgem querida, mata-me Basta, basta, basta. Ó Jesus, Santa Maria, basta! Oh oh oh oh oh' E depois num estertor, 'Mamma mia, mamma mia' E calou-se mordendo o braço, enquanto o couto da perna continuava a mexer.”

Através de situações extremas o ser humano é colocado à prova e descobre-se, existe esta espécie de redenção em Frederick Henry. “O Adeus às Armas” é a ponta do iceberg da experiência de Hemingway na Primeira Grande Guerra e enaltece também o que de melhor a sua literatura tem para oferecer. Realmente os tempos eram outros, mesmo assim, a sinceridade discursiva, a experiência exotérica, a coragem e a sobriedade narrativa são elementos que não deveriam ser esquecidos na literatura actual.

 

Por: Bruno Rosa Gonçalves