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Elogio Literário

Procura o elogio gratuito a várias expressões de Arte. Numa época tão dada a críticas, aqui só se pretende elogiar...

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Elogio Literário

20
Jun20

Denis Diderot - Jacques o Fatalista e o Seu Amo

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Será que “estava escrito lá em cima que” Denis Diderot haveria de conseguir esta obra magnífica? Os crentes na doutrina determinista dirão que sim, tal como o fatalista, Jacques.

O ambiente histórico-social por detrás da obra foram os movimentos iluministas franceses, que tiveram Diderot como um grande impulsionador. Esta corrente filosófica conduziu a França à Revolução em 1789, na qual, os valores emergentes do iluminismo permitiram a coesão de toda a nação gaulesa. Este “catecismo” iluminista é implicitamente explorado na obra, o seu autor, permite-se ao gozo, por assim dizer, para referir os anseios e dúvidas vigentes na época. Aproveita a sua posição omnisciente para criticar, divagar e comentar as atuações das personagens, bem como, os seus vícios mais sombrios, além disso, dialoga quase de forma informal com o leitor “Mas, por Deus, leitor, dizei-me vós, para onde iam eles?... Mas, por Deus, leitor, responderei eu, haverá alguém que saiba para onde vai? E vós, para onde ides?”. Além de querer introduzir o leitor na história e de lhe atribuir uma nova importância, critica-o, pois interpreta qual seria o seu julgamento na acção, faz assim do leitor uma espécie de elemento colectivo, como se falasse a toda a sociedade francesa de século XVIII “Entrais em fúria ao ouvir o nome da senhora de La Pommeraye e exclamais: «Ah, que mulher horrível! Ah, que hipócrita! Ah, pérfida!» Nada de exclamações, nada de cóleras, nada de imparcialidades: raciocinemos. Todos os dias se praticam acções mais negras, sem qualquer génio. Podeis odiar ou podeis temer a senhora de La Pommeraye; mas não deveis desprezá-la”, “Ah, leitor, vós sois de uma curiosidade verdadeiramente incómoda!”.

Este diálogo directo que é estabelecido com o leitor e uma certa distorção da linha narrativa, na qual, as histórias são sempre interrompidas por novas histórias, torna a obra de difícil arrumação quanto ao género literário, alguns consideram-na como um anti-romance. É uma posição que o próprio autor se regozija, uma vez que, existe ao longo da narração uma espécie de paródia em relação ao romance convencional, leia-se por exemplo, quando o narrador interrompe uma personagem no momento exacto em que esta iria revelar uma carta importante para o desvendar de uma das histórias: “Leitor, suspendeis aqui a vossa leitura; que se passa? Ah, julgo compreender-vos, gostaríeis de ver essa carta? A senhora Riccoboni não deixaria de vo-la mostrar... Suplico-vos pois que vos digneis dispensar essas duas cartas e continuar a vossa leitura”. Jacques o Fatalista e o seu amo é um exercício de dialéctica, uma arte de contar histórias, ou, como diz o professor Eduardo Prado Coelho, “a paixão de falar”. Espinoza, Rousseau, Laurence Sterne, entre outros, serviram de inspiração e de influência, assumido por Diderot na narrativa, com breves passagens destacando o caso. Existe também uma aproximação às narrativas greco-latinas, reconhecido tanto no espírito odisseico de Jacques e do seu amo – estão em viagem desde o início do livro até ao fim; como, nas várias histórias dos amores – todas as personagens que surgem ao longo da viagem tem histórias de amores para contar.

O repto do protagonista é sempre o “estava escrito lá em cima”, assim, tudo o que fizesse já estaria “escrito” e teria sempre que acontecer, algo que, o próprio narrador por vezes contradiz, falando para o leitor. Jacques e o seu amo, tinham o seu destino traçado, caminhavam para ele conversando apenas, no fundo, é uma das hipóteses da existência humana. Com esta leitura aprendemos a respeitar o tempo: o tempo de ouvir e o tempo de contar, assumem mesmo maior importância do que o tempo da nossa existência sob jugo da máxima fatalista “estava escrito lá em cima”.

Por: Bruno Rosa Gonçalves