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Elogio Literário

Procura o elogio gratuito a várias expressões de Arte. Numa época tão dada a críticas, aqui só se pretende elogiar...

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Elogio Literário

30
Mar20

Charles Baudelaire - As Flores do Mal

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Para Charles Baudelaire o homem caminhava na procura da modernidade, de forma a extrair, no que é mundano e passageiro, algo de eterno. Na época em que viveu (1821-1867), a sua cidade de Paris era uma cidade próspera, economicamente vivia sobre a perspetiva da Revolução Industrial, politicamente, estava num período pós-Revolução francesa e culturalmente era abrigo aos artistas das mais variadas áreas. Neste clima de sustentabilidade e de expectativas do homem inserido numa sociedade evoluída, o poeta francês procurou um olhar contrastante com a estética presente nos principais cânones da sua época, rompeu com o que era reconhecido como “belo” ideal, e redirecionou essa visão para um olhar subjetivo sobre a arte e o artista. Desta forma, na arte o artista deve respeitar unicamente a liberdade e a imaginação, desviando-se assim de conceitos e normas pré-estabelecidos e de predicados académicos. Como o sentido da realidade é algo individual, a arte mimética não a pode traduzir, sendo esta uma destruição da imaginação do artista. Nesta conceção o “belo” baudelairiano pertence ao que é eterno e, ao mesmo tempo, relativo, ou seja, aquilo que na história perpetua dada a sua qualidade única e ideal, como também, aquilo que mostra um curto período de tempo que é efémero (presente). Assim a beleza deve ser a representação do momento histórico em que o artista vive. 

A obra Flores do Mal (1857) é um esboço poético da visão do artista relativamente ao seu tempo e à arte. Nela, Baudelaire faz passagem por temas como o amor (Morte dos Amantes), a arte (Os Faróis), o tédio (Ao Leitor), a morte (Um Cadáver), a decadência (Remorso Póstumo) e o mundano (A um passante). A obra poética está enraizada na multidão e nos transeuntes com quem o poeta se encontra na rua, esboça o fugaz, o efémero, traços que para Baudelaire eram a condução a uma existência modernista. Muitos dos poemas d’As Flores do Mal conduz o leitor ao tema da morte “Quando um dia dormires, ó bela tenebrosa, / No fundo de um jazigo de mármore negro”, numa tentativa de revelar o quão rápida a vida é.

O poema “Os cegos” que, supostamente é influenciado pelo quadro “Parábola dos cegos” do renascentista Pieter Bruegel, trata-se de uma visão crua e analítica da imagem do homem invisual. O poema traduz a sensação que o poeta francês tem em relação aos cegos, considerando-os “horrorosos”, semelhantes a “manequins, vagamente ridículos”, que vagueiam como “sonâmbulos” num vazio silencioso. É nesse silêncio que, na perspetiva do sujeito poético, os cegos encontram a sua paz para sonharem de forma tranquila num horizonte invisível. A escuridão é um espaço onde “a chama divina partiu” e que ocupa a visão de um cego, ou seja, o vazio e o nada, espaço que um visual só consegue alcançar com a sua morte. Ao mesmo tempo, o poeta realça a altivez do olhar que possuem, pois procuram o céu como limite, entendendo-o como superior ao chão “Como se sempre olhassem para longe, elevam-se / Rumo ao céu; nunca os vemos, sonhadores, pràs pedras”. O olhar que conduz ao céu é a dúvida que o sujeito poético lança no último verso do poema, tendo em conta a procura sonhadora com que eles se distinguem ao olhar para cima “o que procuram no Céu tantos cegos?”. Neste soneto a forma como o autor expressa as suas sensações observando os cegos pode parecer grosseira, tendo em conta os termos utilizados (quando contextualizado com o moralismo da época) mas vinca sobretudo aquilo que é a subjetividade de um artista na sua representação artística – a impressão pessoal.

Em “A morte dos amantes” o poeta francês exalta o amor entre dois presumíveis amantes influenciado pela lenda medieval de Tristão e Isolda. Nas duas primeiras estrofes do soneto é apresentado o clima que antecede a envolvência amorosa entre um casal, antes das “chamas” se juntarem. Nesse momento, o espaço é descrito como algo de bonito “Teremos camas com os mais belos cheiros”, os amantes refletem “chamas” - símbolos de paixão ardente, demonstrando o fervor que estão a sentir e equilibram-se na vontade e no espírito “Nas nossas almas, dois espelhos gémeos”. No primeiro terceto o autor reflete sobre a conclusão do ato do amor praticado pelos dois amantes, entendido como sendo um “relâmpago” capaz de apagar as “chamas”. O relâmpago pode também ser interpretado como o clímax do ato sexual praticado pelos amantes. Depois do “adeus sem fim” apenas um “Anjo” tem a capacidade de recordar “os baços espelhos e as chamas mortas”, ou seja, o amor que existiu no passado e que fugiu fugazmente. Esta fugacidade das coisas boas ou o prazer efémero da vida que morre em dado instante é outra das visões de modernidade em Baudelaire. A memória surge como elemento de perceção daquilo que foi belo num dado momento e que deixou alegria. Assim, a capacidade da arte em, num determinado presente, capacitar-se de elementos que preservem a sua eternidade é outra das características que definem a modernidade para Baudelaire e que se encontram neste poema. 

O termo “modernidade” foi aplicado pela primeira vez na literatura por Baudelaire, num texto sobre pintura. Nele, o francês preconiza as premissas que deverão fazer parte do artista moderno: romper com a tradição clássica e desenvolver uma representação artística focada em elementos do instantâneo, do fugaz e do subjetivo. Assim, a dor, o tédio, o prazer, o amor ou o ódio fazem parte da existência do homem e habitam na fugacidade da sua vida, portanto, sob o ponto de vista artístico, devem ser expostos pelo artista que procura a modernidade.

Por: Bruno Rosa Gonçalves