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Elogio Literário

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Elogio Literário

24
Abr20

Camilo Castelo Branco - A Queda dum Anjo

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A vida de Camilo Castelo Branco mistura-se muito com a sua obra – as suas personagens revelam as próprias cicatrizes do autor. Este ficou órfão muito cedo (aos dez anos tinha perdido mãe e pai), teve educação provinciana (educado em Vila Real por padres de aldeia), teve decisões familiares disruptivas (abandonou esposas e filhas), foi um apaixonado fervoroso (relação com Ana Plácido) que o levou à prisão por crime de adultério. Para além desta vida rocambolesca foi ainda o primeiro escritor português a viver inteiramente da escrita. Esta era realizada essencialmente sob a forma de folhetins, novelas e romances. Como realça o professor Carlos Reis, o estilo camiliano “recupera e intensifica o processo de cativar e manipular os sentimentos do público”. As suas obras são o reflexo de uma certa influência dos românticos portugueses como Almeida Garrett e Alexandre Herculano e, muitas vezes, é considerado ultra-romântico, no entanto, traduz uma certa evolução da literatura portuguesa do romântico ao realismo, bem evidente na obra “A Queda dum Anjo”.

Para o leitor se embrenhar nas obras camilianas é importante fazer um enquadramento histórico-social na época do autor. Viveu na altura da Regeneração, que visava a evolução da sociedade para o progresso económico e industrial, com objectivos de a aproximar dos hábitos comuns de outros países desenvolvidos, tais como, Inglaterra e França. Nesse período, em Portugal, existiam duas forças políticas opostas: os absolutistas – mais conservadores, e os liberais – mais progressistas, e é neste contexto que nasce a obra “A Queda dum Anjo”.

A obra é escrita ao chamada ritmo camiliano – um narrador omnisciente, que relata o trajecto do protagonista - Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda (nome já por si cómico), numa linguagem vernácula e com diálogos representativos da comunicação de época, a descrição das peripécias apresentam um elevado tom satírico e jocoso.

Calisto é o típico erudito provinciano que guarda em si os valores de um Portugal ultrapassado, os costumes e as preocupações de um meio rural que encerrava a tradição das origens e as reservas ao progresso. Com a sua ida para a capital, no cargo de deputado na assembleia em representação da sua região, coloca esses seus princípios em choque com os de um Portugal diferente do que conhecia até então, que procurava construir uma nova mentalidade colectiva.

Numa primeira fase da história o nosso pitoresco Calisto é fiel aos seus conhecimentos clássicos e obedece às suas experiências livrescas no combate que faz com a Lisboa do século XIX, negando mesmo a realidade que observa. Esse facto faz dele um alvo fácil de chacota em pleno exercício de funções no parlamento, sendo, mesmo assim, eloquente ao ponto de adquirir reputação institucional. Camilo aproveita estas discussões parlamentares como troça de um Portugal perdido em discursos vazios e corruptos, que não enriqueciam o progresso que se fazia crer existir.

O amor – como elemento funcional nas obras de Camilo – surge como catalisador de emoções nos personagens, capaz de alterar rumo das histórias. O protagonista torna-se cada vez menos “anjo” e, como o narrador defende, cada vez mais “homem”, como tal obedece às sensações, torna-se sensível e, no fundo, deixa-se levar por esse elemento colectivo que é a cidade. Este elemento romântico na obra permite a alteração de estados nas personagens e o contraste que existe entre o ideal e o real.

A Queda dum Anjo” estabelece várias dicotomias que merecem atenção: o espaço campo/cidade, colocando em contraste a autenticidade do meio rural e a corrupção do urbano; a luta política entre absolutistas e liberais, e o amor ideal – Calisto casa-se por conveniência com a prima Teodora, em contraste com o amor verdadeiro – a paixão que o junta a Ifigénia. No fundo, Calisto Elói é humano como todos nós e é por isso que cai e deixa de ser anjo, existe assim uma evolução ao longo de toda a obra desta pitoresca personagem. O próprio género da obra sofre também uma evolução ao longo da história, inicialmente a narrativa apresenta valores mais próximos do romantismo e vai evoluindo à medida que as personagens se desenvolvem, tornando-se na parte final uma obra mais próxima dos valores mais crus e objectivos que caracterizam o realismo. Ficamos com a impressão de que, ao mesmo tempo que um anjo cai do céu e se torna homem, a própria literatura portuguesa deixa de lado as asas do romantismo e migra para o realismo, numa clara evolução de género significativa para o estudo da história literária portuguesa.

Por: Bruno Rosa Gonçalves

 

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