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Elogio Literário

Procura o elogio gratuito a várias expressões de Arte. Numa época tão dada a críticas, aqui só se pretende elogiar...

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Elogio Literário

19
Out20

Charles Bukowski - Pão com Fiambre

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Se vivesse hoje, Bukowski estaria envolvido, muito possivelmente, em grandes polémicas, estaria vulnerável aos ataques de uma sociedade “assanhada” que não sabe distinguir estilisticamente a obra do autor. As definições mais vulgares atribuídas à sua obra são as de escritor maldito, sujo, burlesco, anti-romântico, por diante. De facto a obra de Charles Bukowski não obedece a padrões académicos, não está de certa forma comprometida, sendo até classificada como anti-sistema. Numa linguagem directa, com diálogos constantes, realismo cru, condimentado com um vernáculo constante, assim se caracterizam os vários livros do autor germano-americano. Os seus textos fazem parte de ocorrências reais, sendo portanto autobiográficos, envolvendo o seu alter ego, Henry Chinaski. Prostituição, lutas de bares, mulheres, precariedade, alcoolismo, cigarros, apostas, escrita, enfim, uma data de temas que abordou e que lhe dão fama de escritor marginal. Pela natureza dos seus temas e pela forma como os narrou existe uma clara mistura entre a vida e a narrativa, evocando esse passado duro, imiscuído na delinquência, próximo da famosa geração Beat (algo que Bukowski sempre se negou de pertencer) e próximo também dos falhados, dos desfavorecidos e dos perdedores de uma sociedade que Bukowski descreveria como doente. Simbiose perfeita com os seus leitores que se identificaram ao longo de gerações perante a génese do seu corpo literário e, também de forma evidente, pela natural liberdade de dizer o que pensa sem medo de represálias. O seu epitáfio “Don't Try” alude a todos esses excessos que perseguiu e desmoraliza os seus fãs a persegui-lo, ou não!

Pão com Fiambre é um livro publicado em 1982, autobiográfico, cujo narrador e protagonista é Henry Chinaski, o seu célebre alter ego. Do ponto de vista literário classifica-se como um bildungsroman – um romance em que a personagem principal se desenvolve ao longo da narrativa desde o início de vida até à maturidade, onde o leitor consegue captar as suas transformações físicas e psicológicas.

As primeiras memórias de Henry Chinaski são ponto de partida de Pão com Fiambre, e é nos primeiros capítulos que identificamos a estrutura familiar, as origens alemãs, a dura educação paterna - semente essa que influenciará o carácter do protagonista “- Vês esta cicatriz na minha mão? - perguntou o meu pai. - É o sítio onde a Elinor [sua irmã] me espetou um lápis afiado quando eu era muito novo. A cicatriz nunca desapareceu. O meu pai não gostava de pessoas. Não gostava de mim.” A inimicícia paterna e as consequentes tareias que este lhe infringia acabariam por ser marcantes em Chinaski, moldando-o a um carácter frio, violento, recheado de ódios, fatalista e marginal “Gostava de ser apontado como um dos piores. Gostava de ser o mau da fita. Qualquer um podia ser o bonzinho, para isso não era preciso ter tomates... Eu gostava da zona, tinha árvores a fazer sombra, e como algumas pessoas tinham dito que eu era feio, preferi sempre a sombra ao sol, a noite ao dia”.

Além de todos os conflitos familiares, o ambiente escolar era igualmente tumultuoso, haviam constantes brigas entre colegas e Henry lutava para se assumir “Vínhamos todos de famílias vítimas da depressão, estávamos mal alimentados, mas mesmo assim tínhamos crescido e ficado fortes. Penso que a maioria era pouco acarinhada pela família, mas também não pedíamos carinho ou mimo a ninguém... Era como se tivéssemos crescido demasiado rápido e estivéssemos cansados de ser crianças. Não tínhamos qualquer tipo de respeito pelos mais velhos. Parecíamos cães sarnentos”. Entende-se portanto que um carácter alimentado pela raiva e desprovido de afecto só pode gerar uma alma obscena e inconformada.

A feiura tão comum em Bukowski é-nos sugerida pelas passagens em que o protagonista agoniza perante a luta contra o acne juvenil que o atormenta ao longo de largos anos “Colocava-me muitas vezes em frente ao espelho, a pensar quão feia uma pessoa poderia ficar. Olhava com incredulidade para a minha cara, depois para as minhas costas. Era horrível”. Durante essa clausura, Henry encontra os prazeres da literatura e descobre autores marcantes, admitindo serem os únicos homens que falavam consigo. D. H. Lawrence, Huxley, Sherwood Anderson, Gorky “e depois apareceu o Hemingway. Que maravilha! Esse, sim, sabia escrever uma frase. Era uma alegria. As palavras não aborreciam, punham-me a cabeça a latejar. Se o lêssemos e nos deixássemos levar pela magia, conseguiríamos viver sem dor, com esperança, acontecesse o que acontecesse”. Detectamos nomes que influenciaram fortemente Bukowski, a acrescentar a esta lista um dos seus autores predilectos, John Fante.

A acção decorre desde os anos vinte até chegar aos quarenta do século XX. Neste período ocorreu a Grande Depressão e o início da Segunda Guerra Mundial, Henry Chinaski “não sabia o que queria”, não tinha particulares objectivos e reflete as mesmas perspectivas da sua geração – “os fracos” da sociedade americana viviam no limbo de um horizonte miserável, enquanto que os que cediam à ordem (“os fortes”) iriam ser recrutados para fazerem a Guerra “À minha volta gravitavam os fracos em vez dos fortes, os feios em vez dos bonitos, os fracassados em vez dos vencedores. Parecia que estava destinado a viver a vida com eles”. O livro termina com o massacre de Pearl Harbor como cenário exterior, dando uma previsão fatalista ao que viria depois. Bukowski reflecte uma outra visão do sonho americano.

Henry Chinaski é alguém em conflito com a sociedade, não se encaixa nos seus padrões, sendo perverso o facto de ter sido esse mundo que o gerou. Pão com fiambre é talvez o livro mais denso e introspectivo de Bukowski. Para quem julga que a obra de Bukowski é muito superficial, estando mais familiarizado com os contos e os romances, recomenda-se a leitura da sua obra poética, onde o americano se revela mais cerebral e íntimo, tal como no poema “Bluebird”:

Há um pássaro azul no meu coração

que quer sair

mas eu sou demasiado duro com ele,

digo, fica aí,

eu não vou deixar que alguém

te veja.

 

Há um pássaro azul no meu coração

que quer sair

mas eu despejo whiskey nele e inalo

fumo de cigarro

e as putas e os empregados de balcão

e de mercearias

nunca saberão

que ele está

lá dentro.

 

Há um pássaro azul no meu coração

que quer sair

mas eu sou demasiado duro com ele,

digo,

fica quieto,

queres destruir-me?

Queres arruinar-me os meus trabalhos?

Queres acabar com as minhas vendas de livros

na Europa?

 

Há um pássaro azul no meu coração

que quer sair

mas eu sou mais esperto, deixo-o sair

em algumas noites

quando todos dormem.

Digo, eu sei que tu estás aí,

por isso,

não fiques triste.

 

Depois volto a colocá-lo de volta,

mas ele canta um pouco

lá dentro, eu ainda não o deixei

morrer

e nós dormimos juntos assim

como outros

num pacto secreto

e isso é bom o suficiente para

fazer um homem

chorar,

mas eu não choro

e tu?”

Por: Bruno Rosa Gonçalves