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Elogio Literário

Procura o elogio gratuito a várias expressões de Arte. Numa época tão dada a críticas, aqui só se pretende elogiar...

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Elogio Literário

27
Set20

William Shakespeare - Hamlet

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Shakespeare está para a literatura mundial assim como Hamlet está para o domínio imaginário da personagem literária: um espírito que se estende por toda a parte, um espírito ao qual nada nem ninguém consegue impor limites” É assim que o famoso crítico Harold Bloom vê a obra e o autor, no seu livro O Cânone Ocidental define Shakespeare como sendo “o cânone” superiorizando-se a todos os outros escritores ocidentais pela sua “acuidade cognitiva, energia linguística e poder de invenção”.

Existe um certo mistério que reveste a figura de Shakespeare, ao qual, pouco se conhece da sua vida privada e das suas convicções pessoais. Pertence ao período isabelino, altura em que o teatro adquiriu na coroa inglesa um papel muito importante de prestígio. Esse fascínio foi potenciado através de muitas das suas obras tais como, Hamlet, MacBeth, Romeu e JulietaRicardo III, O Mercador de Veneza, entre muitas outras.

Hamlet é uma tragédia de V actos que representam o regresso do príncipe da Dinamarca a Elsinore, depois da morte do Rei, seu pai. O trono do reino foi ocupado pelo seu tio que desposou a rainha viúva, Gertrud. No I acto da peça temos o surgimento do fantasma do Rei - personagem mística que antecipa a tragédia, surge do reino dos mortos para pedir vingança “Se tens em ti sentimentos, não admitas, não deixes o leito real da Dinamarca ser uma cama de luxúria e incesto funesto”. O jovem príncipe torna-se calculista e empenha-se em estabelecer a justiça, vendo na sua mãe e no seu tio Claudius os principais alvos.

No II acto, Hamlet finge-se de louco e os reis procuram perceber os motivos que conduzem o príncipe ao desânimo, para isso, instigam os seus cortesãos, Guildenstern e Rosencrantz, e Polónio (conselheiro) a averiguar. O príncipe desconfia dos seus pares e das intenções das suas perguntas “Mandaram-vos cá chamar, e há uma espécie de confissão no vosso olhar que a modéstia não sabe encobrir” e trabalha na peça “A Ratoeira” que será apresentada ao Rei, para que assim possa extrair o sentimentos de culpa que o incriminará ”A peça é a coisa com que vou enlaçar a consciência do Rei”. O teatro como ferramenta crucial para desvendar mistérios, a arte a combater as entranhas da consciência humana.

Defraldados os intentos do Rei em expropriar os pensamentos de Hamlet, assiste então à peça por ele patrocinada onde cai na “ratoeira” e perturba-se com a cena de assassinato exposta na peça, pressentindo a semelhança com a sua história. Neste III acto o Rei assume o seu crime e Hamlet atormentado com a espionagem que lhe é dirigida, assassina Polónio. “A Ratoeira” levada ao sentido literal, onde um “rato” é morto pela espada.

Seguidamente o Rei manda o príncipe para Inglaterra de forma a fugir ao crime por si cometido. A esta vontade estava subjacente o interesse perverso de enviar Hamlet para a morte. Algo que este descobre a tempo. No mesmo acto, Laertes regressa à Dinamarca com vontade expressa de vingar seu pai Polónio. Nas últimas cenas, Ofélia, a “musa” do príncipe suicida-se.

Finalmente, no V acto, tendo o cemitério simbolicamente como fundo, cenário onde Ofélia era enterrada (como sendo o enterro do amor), Hamlet e Laertes confrontam-se. O duelo é adulterado pelo Rei tendo este como único objectivo a morte do protagonista.

O vigor expressivo é comum a todas as personagens da obra, o que contribui para a riqueza em absoluto dos diálogos e dos solilóquios. Para a posteridade ficarão várias passagens virtuosas como o momento no início do último acto onde Hamlet fala para a caveira de Yorick (um antigo bobo da corte) “Ah, pobre Yorick! Mil vezes às costas me levou, e agora – que abominável me é isto à ideia. Daqui pendiam os lábios que um ror de vezes beijei. Onde estão agora a sua galhofa e cabriolas, aquelas cantigas e assomos de chacota, que costumavam lançar toda a mesa num tumulto? Não há agora ninguém que zombe do teu sorriso? Vai agora até à câmara de uma dama e diz-lhe que, pinte-se ela com pó espesso de um dedo, com essa tua figura se há-de finar. Fá-la rir disso”. O autor leva-nos a um pensamento profundo sobre a nossa insignificância em que depois de mortos, um simples coveiro nos atira o crânio com a mesma insignificância com que joga um simples objecto “Aquela caveira teve uma língua lá dentro, e soube em tempos cantar. Olha como este vilão a deita ao chão, como se fosse a queixada de Caim, que foi o primeiro homicida. Isto podia ser a cabeça de um político, de quem este patego se mostra agora superior, alguém que foi capaz de até Deus tornear, não podia?”.

Hamlet é a personagem que se perturba com a consciência e levanta questões inerentes à existência, quase como uma personagem das obras de Platão “Ser ou não ser, eis a questão: se é mais nobre no espírito sofrer as fundas e flechas da fortuna ultrajante, ou brandir armas contra um mar de agravos, e, opondo-os, fazê-los cessar. Morrer – dormir, mais nada; e num sono dizer que cessou o torno no peito e os mil choques naturais de que a carne é herdeira: eis uma consumação que devotamente se busque. Morrer, dormir; dormir, porventura sonhar – ah, é esse o estorvo, pois nesse sono da morte que sonhos virão, quando nos desligarmos deste liame mortal, nos deve fazer pensar – é esse o aspecto que calamidade faz de tão longa vida”.

A paixão entre o protagonista e Ofélia é fria e fugidia, num primeiro momento é revelada uma aproximação e afecto entre ambos, no entanto, perante a iminência da traição de Ofélia, Hamlet traça um paralelismo entre a beleza e a honestidade. “Que sois bela e honesta, não busque a honestidade trato com a beleza... Pois mais facilmente torna o poder da beleza a honestidade chula do que pode a honestidade fazer da beleza algo assim parecido”. A beleza que não cega os principais desígnios do homem e o homem que não se deixa afectar pela emoção na procura dos seus compromissos com a verdade, e esses são os realmente belos.

A própria função do actor é consciencializada por Hamlet, na passagem onde prepara a peça para apresentar ao Rei, apresenta-nos uma exímia descrição ao que é a profunda manobra de um artista “Não é monstruoso que este actor aqui, por uma ficção apenas, um fumo de paixão, tenha forçado tanto a alma ao que concebeu que, por ela alterado, a cara lhe empalidece, de lágrimas nos olhos e tumulto no aspecto, a voz tolhida, e todos os actos moldando-se na forma ao que imaginou? E tudo por nada”.

No fim tudo é tragédia, a morte ocupa o palco e a vida termina. Hamlet personifica o ser perturbado e consciente - como se fosse impossível a intimidade não atrair tormento – persegue uma causa única que seria a justiça aos olhos dos acontecimentos. O fantasma do Rei marca a peça, torna-a sombria desde início, é a causa principal da aflição do jovem Hamlet, deixa-o louco e controla a sua actuação. Será que os fantasmas existem no mundo exterior ou apenas estão nos nossos olhos?

Com a leitura de Hamlet, Shakespeare alerta-nos para a finitude do ser e das suas perturbações constantes, o que nos deixa “felizes em não sermos demasiado felizes”.

Por: Bruno Rosa Gonçalves

05
Set20

Nathaniel Hawthorne - A Letra Encarnada

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Quando as portas da prisão se abrem e a acusada Hester Prynne delas sai, o narrador refere-se ao espaço envolvente com a seguinte descrição: “Em frente deste feio edifício, e entre ele e o centro da rua, estava um espaço coberto de erva, de ervas ruins, daninhas e desagradáveis à vista, que evidentemente tinham achado qualquer coisa de seu no solo que tão cedo tinha produzido a flor negra de uma sociedade civilizada, uma cadeia. Mas de um lado da entrada, e enraizada quase no limiar, havia uma roseira brava, coberta, neste mês de Junho, de suas flores delicadas, que pareciam oferecer a sua fragrância e beleza frágil ao preso que entrava, e ao criminoso condenado quando saía para a morte, como a provar-lhe que o coração profundo da Natureza sabia ainda sorrir-lhes e ter por eles compaixão”. Um edifício repugnante que serve condenados e almas perdidas, que traduz a falha social e os desvios humanos; as ervas daninhas como revestimento do espaço envolvente, como as almas que participam na permanência dos costumes sem nunca os molestar; e uma roseira brava, lúcida, delicada e luminosa. O velho mundo – a cadeia antiga, construída noutros tempos, antiquada em relação à época moderna, - que contrasta com o “Novo Mundo” - ao mundo da acção que se move para as portas da prisão para delas ver sair Hester Prynne, condenada por adultério. Roger Chillingworth é a figura que paira ao longo da narrativa como sendo a sombra do conservadorismo, sempre presente e sempre velha. Hester é a roseira brava que emerge no meio de tantas ervas daninhas, se quisermos, a letra encarnada, bordada no seu peito, é a única luz que flui num tempo em que o puritanismo predominava e apagava qualquer fogo. Entenda-se fogo por amor ou qualquer outra intumescência emocional. Para vilipêndio dos presentes, a mulher adúltera caminha até ao cadafalso onde terá a sua sentença.

Uma “letra encarnada” como que “impressa na carne” é a ferida que a protagonista transporta, dessa ferida nasceu uma filha, Pearl, filha do mal = pecado. O pecado como desígnio e sentença das almas superiormente moralizadas. Hester, cidadã de Boston, pecadora, tal como Eva no Paraíso. Na obra transparece uma mensagem de esperança e redenção “aos olhos da Pureza infinita, todos somos igualmente pecadores”. Hester, como “profetiza predestinada”, que faz mover o velho mundo conservador e castigador, entrega-o às questões do novo: “porque sou tão infeliz?” abrindo assim as almas à escuta do coração.

A obra é publicada em 1850 e, tendo em conta os caminhos que a literatura na segunda metade desse século tomou, é possível Edgar Allan Poe e Charles Baudelaire terem lido esta obra e daí retirarem alguns elementos que enriqueceram a sua notoriedade literária. Veja-se a sinestesia presente na representação que Pearl tem para a sua mãe – por um lado é o fruto de amor verdadeiro e motivo de ternura, por outro, uma criatura amaldiçoada, que transporta em si o mal e o pecado. Pearl e o bordado no peito de Hester, unificam-se no mesmo significado. O amor, mesmo verdadeiro, é condenável e motivo de escárnio. Estas especificidades na obra de Hawthorne encontram-se mais tarde junto da geração simbolista.

Uma das grandes riquezas que encontramos na literatura é a capacidade que a linguagem possui no encontro com as nossas emoções. Na Letra Encarnada, temos um bom exemplo dessa identificação com o íntimo colectivo americano. É como a dor no peito que o padre Dimmesdale continuamente sente, ou como o sinal que Hester traz sempre consigo. Se olharmos para a sociedade americana de hoje descobrimos alguns sinais de aproximação ao puritanismo descrito no livro: os escândalos sexuais recorrentes, as descriminações e histerias étnicas, a mistura tóxica do belo com o gosto e de autor com a obra. Atente-se na passagem de Hawthorne sobre o patriotismo americano na figura da sua águia “com a costumada incerteza de génio que caracteriza esta pobre ave, parece ela, pela ferocidade do bico e do olhar, e a atitude agressiva geral, ameaçar de mal a comunidade inofensiva, e sobretudo avisar todos os cidadãos receosos que não entrem no edifício que suas asas abertas cobrem. Por feroz, porém, que ela pareça, há muita gente que está neste mesmo momento pensando em acolher-se sob a sua asa federal, imaginando que o seu seio tem a macieza e a comodidade de uma almofada de penas. Mas ela pouca brandura mostra, até no melhor dos seus modos, e mais tarde ou mais cedo – cedo, as mais das vezes, antes que tarde – costuma afastar os seus filhos com um arranhão da sua garra, um golpe do seu bico, ou uma ferida rasgada das suas setas farpadas”.

Por: Bruno Rosa Gonçalves