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Elogio Literário

Procura o elogio gratuito a várias expressões de Arte. Numa época tão dada a críticas, aqui só se pretende elogiar...

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Elogio Literário

17
Ago20

Giotto di Bondone - Invidia

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O pintor florentino Giotto (1266 - 1337) insere-se no movimento gótico pré-renascentista e é reconhecido como o introdutor da perspectiva na pintura. Esta característica teria grandes repercussões na pintura renascentista.

A obra Invidia pertence a um conjunto de afrescos que, no seu conjunto se deu o nome de “As Virtudes e os Vícios”, realizados na capela Arena (nome original: Capella degli Scrovegni) em Pádua. Nessa composição para além da Inveja foram também pintados outros vícios humanos como: Ira, Injustiça, Traição, Desespero, Inconstância e Estultícia; como virtudes foram representados: Temperança, Força, Prudência, Fé, Justiça, Caridade e Esperança.

Invidia é a representação pictórica da Inveja descrita séculos antes por Ovídio nas “Metamorfoses”, a partir da célebre passagem da Deusa Minerva pela casa da Inveja: “A casa dela estava escondida no fundo de um vale, sempre sem sol, que jamais o vento tocara, uma casa triste, toda a abarrotar de um frio entorpecedor (…) vê a Inveja, banqueteando-se com carne de víbora, com que alimenta a sua maldade (…) a lividez cobre-lhe o rosto, todo o corpo é escanzelado; o olhar nunca é frontal, os dentes amarelados de sarro, o peito esverdeado de fel, a língua encharcada em veneno. Jamais um riso, a não ser quando vê alguém sofrendo, jamais dorme, agitada por angústias que a fazem desperta. Com desagrado vê os sucessos dos homens e, ao vê-los, definha; e rói os outros e também a si própria se rói, e este é o seu tormento.”

Com base na descrição deixada pelo poeta romano, a representação desse vício por parte de Giotto é então feita a partir de uma velha. Da sua boca vê-se sair uma serpente. Esta, por sua vez, não ataca ninguém a não ser a própria velha que a expeliu, procurando mesmo cegá-la através do veneno que possui. A serpente simboliza uma forma do pecado e perfídia sobre as intenções, a injecção do seu veneno em nós próprios é a nossa cegueira. Compreendemos igualmente que é o nosso próprio veneno que nos corrói, uma vez que a víbora habita em nós. O lugar que a velha ocupa é sombrio, a completa escuridão preenche a entrada da sua porta. As orelhas são grandes de forma a captar várias informações do mundo circundante. A sua mão aperta com vigor a sacola do seu tesouro, o punho está cerrado, o que denota o ímpeto em preservá-lo a todo o custo. As chamas inflamam o seu corpo, corroendo-o e acompanhando todo o seu caminho.

A velha como realização antropomórfica de um vício que também é antigo no comportamento humano. Os afrescos de Giotto comunicaram com a obra de Ovídio dando cor e expressão à força das palavras. Esta representação pictórica ofereceu um outro tipo de expressão e de entendimento a algo que é abstrato, emocional.

Giotto_di_Bondone_-_No._48_The_Seven_Vices_-_Envy_

Por: Bruno Rosa Gonçalves