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Elogio Literário

Procura o elogio gratuito a várias expressões de Arte. Numa época tão dada a críticas, aqui só se pretende elogiar...

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Elogio Literário

22
Jul20

Gustave Flaubert - Madame Bovary

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Para um objecto artístico ser plenamente saboreado convém conhecer-se a sua época e o trajecto do próprio autor. Em primeiro lugar, Flaubert foi um escritor altamente minucioso na composição das suas obras, intensamente preocupado com a componente estética e por conseguinte com a qualidade de cada frase. Daí os seus trabalhos durarem muitos anos a serem concluídos, Madame Bovary foi um romance que durou cinco anos a ser escrito e foi terminado em 1856. O escritor francês nascido na cidade de Ruão foi um importante impulsionador do realismo, comprometeu-se em relatar nas suas obras a realidade quotidiana sobretudo das classes médias baixas francesas. Madame Bovary, além de ter assumido um papel fundamental na aparição do realismo na literatura trata de assuntos controversos para a época em que foi escrito, tendo o próprio autor sofrido de censura da parte de alguma comunicação social. A obra foi acusada de imoral e obscena por ter narrado actos adúlteros e exposto sentimentos do foro privado e familiar, acusações naturais se pensarmos numa sociedade francesa bastante conservadora acabada de sair da revolução em 1848.

Madame Bovary foi escrito a um ritmo calmo e ordenado, conhecemos as personagens pelas suas acções e por alguns dos seus pensamentos. A linguagem é directa e intencionada a revelar a verdade como ela é sem os grandes arrumos e artífices que o romantismo apresenta. Esta passagem do romantismo para o realismo também é sentida na dicotomia da personagem principal, por um lado persegue um ideal romântico inspirado nas personagens dos livros que lia, sentindo como elas as mesmas alucinações prazenteiras, por outro, vive uma vida modesta, sem grandes feitos, e por isso não sente prazer algum.

Emma Bovary apresenta características balzaquianas, ao longo da história adquire características de uma mulher experiente no que concerne à vida amorosa, descobrimos isto através da interpretação de Léon, seu amante: “Léon não ousava fazer-lhe perguntas; mas, ao descobri-la tão experimentada, pensava que ela deveria ter passado por todas as provas do sofrimento e do prazer. O que o encantara outrora passou assustá-lo um pouco”. Os desejos idílicos e a constante monotonia da realidade levam-nos ao estado de “bovarismo”, termo assumido pelo filósofo Jules de Gaultier anos mais tarde. Emma torna-se uma eterna insaciada, busca o deleite através da sua imaginação e esbarra na não correspondência com a sua vida social e emocional. Este perturbação coincide com a visão de um amor ideal, que por ser ideal, ofusca a própria realidade, transformando a paixão em mera utopia “Não era feliz, nunca o tinha sido. De onde vinha então essa insuficiência da vida, esse apodrecimento instantâneo das coisas onde se apoiava?... Mas, se havia em alguma parte um ser forte e belo, ma natureza valorosa, cheia ao mesmo tempo de exaltação e de requintes, um coração de poeta sob uma forma de um anjo, lira de cordas de bronze, lançando para o céu epitalâmios elegíacos, porque seria que ela não o havia de encontrar? Oh! Que impossibilidade! Nada, de resto, valia a pena ser procurado, tudo mentia! Cada sorriso ocultava bocejos de tédio, cada alegria uma maldição, cada prazer o seu desgosto, e os melhores beijos só deixavam nos lábios o apetite irrealizável de uma voluptuosidade mais sublimada”.

A negação constante de felicidade por força de pretensões exageradas como revela no entendimento dado ao amor, algo que “devia surgir inopinadamente, com grandes lampejos e fulgurações – furacão dos céus que cai sobre a vida, a subverte, arranca as vontades como se fossem folhas e arrasta para o abismo o coração inteiro” ou na visão do adultério como “qualquer coisa de maravilhoso onde tudo seria paixão, êxtase,... os píncaros do sentimento” que lhe iluminariam “o pensamento como relâmpagos”.

A leviandade, o desencanto familiar, as aspirações burguesas, as paixões adúlteras, as regras com a aparência ou a falsidade são os principais traços de personalidade de Emma que contrastam inteiramente com os do seu esposo Charles Bovary, que vivia satisfeito com a realidade, sendo ingénuo ao ponto de não perder forças em encontrar a verdade. Apesar de ser das personagens mais íntegras da obra entrega-se ao laxismo que o faz não interpretar o que está para além do que vê. É possível existir uma simetria entre Charles Bovary (pessoa dada à bondade) e a derrota social a que esse comportamento conduz. Personagens como Rodolphe - galante e perverso; Léon - lírico e idílico, numa primeira fase, e arrebatador e jovial, num último momento; os habitantes de Yonville, na sua maioria de costumes provinciais e puritanos e o Sr. Homais, ambicioso, arguto e interesseiro; criam um retrato da sociedade francesa. Eis uma das feridas causadas por Flaubert aos costumes franceses do século XIX – desvendar o que estava para além das aparências, construir uma teia de personagens em que cada uma mostrava os sonhos e/ou aspirações mais íntimas da sociedade. Essa tal como era não estava disponível de aceitar esse incómodo espelho. Muitas grandes obras são assim, só mais tarde conseguem ser digeridas e apreciadas.

Seria injusto avaliarmos o comportamento de Madame Bovary através das amarras morais predominantes no século XIX (ou que se mantém até hoje), não interessa ajuizar se é aceitável ou não o comportamento da personagem, se a leviandade é corrigível e deveria ser punível. O que interessa sublinhar é que Flaubert soube navegar em mares profundos da consciência humana e trouxe à tona realidades duras de perceber - a intimidade dos nossos sonhos e desejos como veículo literário.

Por: Bruno Rosa Gonçalves