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Elogio Literário

Procura o elogio gratuito a várias expressões de Arte. Numa época tão dada a críticas, aqui só se pretende elogiar...

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Elogio Literário

29
Mai20

Petrónio - Satyricon

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Consta-se que Satyricon foi o primeiro romance da história. Muitos teóricos literários, definem-no como um proto-romance – um género de embrião daquilo que viria a ser o género de romance tal como o conhecemos. Romance ou proto-romance, o certo é que a obra, escrita algures no século I, provavelmente na era de Nero, tornou-se um marco na literatura ocidental por ter desenvolvido a prosa elevando-a a um novo estilo estético-discursivo. Podemos, com isso admitir que Petrónio viveu à frente do seu tempo, uma vez que inaugurou um género estilístico que é comum na contemporaneidade.

Satyricon significa “sátiros” ou “livro dos sátiros”, o que compromete a narrativa numa forte envolvente social, expondo a vida romana em plena prosperidade imperial. Os excessos do império onde abundam: a exuberância dos banquetes, a sedenta vontade de riqueza material, a consumação dos prazeres priápicos, a fé num reconhecimento póstumo, enfim, uma credibilidade de que o metal comprava a felicidade.

No momento da obra, ainda não existia a crença cristã - a visão monoteísta, o pecado mortal, a ressurreição da alma, ascende apenas a vivência pagã – presença contínua de vários deuses (tradição politeísta) que castigam e defendem; ligação ao mito como explicação dos fenómenos naturais, cada uma das personagens vive de acordo com predisposições lascivas, o que torna possível uma abertura aos prazeres. Do ponto de vista filosófico, verifica-se uma tendência epicurista na abordagem, tendo como base a satisfação do corpo, claramente perceptível no Festim de Trimalquião, onde somos levados a entender os luxos exibidos por um liberto “Ai de nós miseráveis, que todo o homúnculo nada é! / Assim ficaremos todos mal, mal o Orco nos arrastar. / Por isso, toca a viver, enquanto boa vida houver”.

Encólpio – narrador; Ascilto, seu amante e Gíton, um servo adolescente são as três personagens principais. Vivem um triângulo amoroso - num claro sinal dos tempos pagãos – amam, traem, cobiçam, desconfiam, sofrem, revelam características elementares de qualquer ser humano. O seu percurso não tem um fim, não existe um objectivo claro e definido, apenas vivem e simbolizam isso mesmo. Trimalquião (personagem central no fragmento Festim de Trimalquião) é o exemplo de quem, por força de várias circunstâncias, escalou no estrato social romano, de escravo passou a senhor. Representa toda a grandeza e arrogância que esse trajecto pode apresentar, não olha a meios para conseguir o prazer carnal. Exibe banquetes com as iguarias mais exuberantes que poderiam ser vistas e transporta no corpo os bens materiais mais invejados, de um modo geral, acha-se capaz de comprar reconhecimento.

Nas acusações feitas ao longo da obra detectamos uma sociedade putrefacta quanto aos seus valores e princípios, como deixa bem claro no início da obra “eu penso que os jovens, ao frequentarem a escola, se tornam parvos de todo, porque não discutem nem vêem nenhum dos problemas da realidade quotidiana...”, “...uma vez corrompidas as boas regras da eloquência, logo ela ficou queda e muda”. A poesia na personagem de Eumolpo personifica a arte retórica que, simbolicamente numa das cenas, é apedrejada e detestada pela maioria. Poeta esse que, num naufrágio continua a compor versos, mesmo perante a iminência da morte, numa imagem daquilo que significa a transcendência da arte “Deixem-me acabar esta frase; está encravado o poema na fase final”.

A visão de Petrónio vai para além da ridicularização social e da acusação de vícios, alcança também um tipo de consciência que permite o benefício da dúvida perante o outro, um género de pensamento que nos coloca no lugar do outro. Evidência representada por Encólpio quando observa um cadáver ondulando no mar após um naufrágio “A este quem sabe, nalgum lugar da terra, o está aguardando a mulher, posta em sossego, quem sabe se um filho, desconhecedor da tempestade, ou então um pai; em todo o caso, alguma pessoa deixou, a quem, ao partir, deu um beijo”. Na mesma cena, após reconhecer o corpo de um seu inimigo, o mesmo Encólpio coloca em causa a tenacidade do ser humano, num discurso que Shakespeare, séculos mais tarde, soube muito bem aproveitar na peça Hamlet: “Onde está agora a tua fúria, onde está a tua força? Ora aí te encontras à mercê dos peixes e dos animais, tu que ainda à pouco te gabavas da potência do teu império, e de um barco tão grande não possuis, como náufrago, uma tábua sequer”.

Como Delfim F. Leão indica Satyricon “faz de Petrónio, quase vinte séculos volvidos sobre a sua morte, um dos autores mais interessantes e modernos que a Antiguidade nos legou”.

Por: Bruno Rosa Gonçalves

 

 

24
Mai20

Breve Estudo sobre René Descartes

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O racionalismo é uma corrente filosófica que nasceu no século XVII que permitiu à razão superar a experiência sensível, conferindo-lhe autonomia, garantindo-se como um princípio fundamental do saber. Para os racionalistas, os nossos conhecimentos verdadeiros derivam da razão. René Descartes distingue-se como o primeiro filósofo a aplicar os conceitos racionalistas, defendendo através do seu “método”, que a razão é única, conseguindo distinguir o que é verdadeiro daquilo que é falso. Para Descartes a intuição – percepções imediatas de conceitos simples, e a dedução – sucessão de intuições das naturezas simples e das conexões que estas geram, são os dois modelos que permitem alcançar o conhecimento verdadeiro. O “método” de Descartes deu então início ao pensamento moderno através da constante dúvida sobre a realidade. No pensamento do filósofo francês a busca da verdade absolutamente certa deve, em primeiro lugar, suprimir todas as dúvidas, ou seja, duvidando, o homem consegue encontrar caminho para as certezas, ao eliminar as incertezas geradas pela própria dúvida. A dúvida metódica pode ser interpretada através das falácias dos sentidos - provocadas pela indução ao erro que os sentidos conduzem, da indistinção entre a vigília e o sonho – acrescentando a dúvida se aquilo que vemos é real ou não, o que depende sempre da interpretação pessoal do indivíduo e da dúvida através de um “espírito maligno” - da eventualidade de que toda a interpretação da realidade seja obra de um grande equívoco. A dúvida metódica serve assim para desconstruir a realidade tal como é conhecida, e permite ao filósofo chegar à primeira grande verdade absoluta: de que o homem pensa e, por pensar existe, porque pensou. A sua célebre máxima “penso, logo existo” atribui a primeira certeza totalmente clara e distinta ao conhecimento, fazendo com que todas as certezas que forem tão percetíveis como esta se assumam também elas verdadeiras. Portanto, o indivíduo através do pensamento pensa sempre ideias e estas assumem-se como adventícias, as que parecem aparecer da experiência externa (“oceano”, ”mulher” ou ”cor”), como ideias factícias, que se constroem através de outras ideias já existentes (a ideia de um cão com três cabeças) ou como ideias inatas, fundamentais ao racionalismo, que sugerem todas as ideias que o conhecimento encerra por si mesmo (“pensamento” ou “existência”). Partindo do raciocínio baseado nas ideias, Descartes identifica a existência de Deus, associando-o à ideia de infinito, concluindo esta ideia como inata, pois o homem, como ser pensante, imediatamente entende a finitude. Em suma, a realidade para o filósofo francês é estruturada a partir de Deus, como substância infinita, no “Eu” (que pensa), como substância pensante e nos “corpos” como substância extensa, sendo estas substâncias caracterizadas como algo que tem existência e que não necessita de mais nada para existir. O racionalismo trouxe assim um fundamental contributo para a evolução dos trabalhos científicos.

Por: Bruno Rosa Gonçalves

15
Mai20

Jonathan Swift - Singela Proposta e Outros Textos Satíricos

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Este pau singelo, que hoje diviso ingloriamente tombado naquele recanto esquecido, conheci-o em tempos num estado vicejante, em plena floresta; estava repleto de seiva, repleto de folhas e repleto de galhos; agora, todavia, em vão tenta a arte afanosa do homem rivalizar com a natureza” - assim começa a sátira Meditação Acerca de Uma Vassoura construída com o objectivo de ser lido a uma condessa londrina. Swift depois de realizar esta composição inseriu-a no interior de um livro de um certo Robert Boyle (autor célebre por obras morais da época) e, numa das leituras dessa obra que fazia regularmente à condessa, leu-a. Uma vassoura comparada ao homem “o que é o homem, dizei-me, senão uma criatura às avessas, com as faculdades animais perpetuamente às cavalitas do irracional”. Foi este “virar do avesso” que permitiu a Swift contornar com graça o desconforto que sentia em ser obrigado a ler autores que, no seu entendimento, eram menores. Olhar para o mundo real e desconstruí-lo, eis uma abordagem que permite o romper da trapaça, da ironia, da comédia, da crítica e do ridículo e que no fim nos permite olhar para nós próprios e rirmos dos nossos defeitos.

Nascido em Dublin, na segunda metade do século XVII, Jonathan Swift passou por uma infância atribulada e difícil, sendo por intermédio de William Temple (aristocrata inglês) que teve acesso, tanto a uma conveniente educação, como a uma proximidade de círculos literários. Este contacto inspirou-o a observar os preâmbulos literários de uma forma marcadamente mordaz.

A Batalha dos Livros foi criado com intuito de defesa a um ensaio de William Temple sobre o crédito que os livros antigos e modernos tiveram para a humanidade. Nesse texto, os autores modernos (finais de século XVII que atacaram o ensaio de Temple) são acusados de possuir “quando se trata de tecer especulações, uma maravilhosa agilidade, e não concebem cumes que a sua ligeireza não possa conquistar” e, vendo-se ofuscados pela sombra do cume do Monte Parnasso – local onde habitam os antigos e aspiram chegar os modernos – causada por tão elevada altitude, desafiam os seus habitantes para uma acérrima luta. A posição dos antigos nas estantes, apesar da sua “prudência, antiguidade e, acima de tudo, os seus grandes méritos, por comparação com os modernos” é vilmente contestada pelos jovens aspirantes que, através da sua leviandade, procuram esse espaço de influência. Nesta dura batalha livresca os antigos possuem nas suas fileiras de combate nomes das letras como Homero, Vergílio, Píndaro ou Esopo, por sua vez, os modernos são representados por algumas figuras da época que o autor irlandês vulgariza, com mestria, neste petulante confronto. A dada altura do duelo os modernos tem necessidade de recorrer aos seus deuses, é quando visitam a Crítica (filha da Ignorância e do Orgulho, irmã da Opinião e mãe do Ruído, Insolência, Estupidez, Vaidade, Dogmatismo, Pedantismo e Rudeza) que os protege “Sou eu que confiro a sabedoria aos petizes e aos idiotas; graças a mim os filhos tornam-se mais sábios do que os pais; os elegantes tornam-se políticos, e os colegiais, árbitros em matéria filosófica; graças a mim, os sofistas debatem e extraem conclusões em domínios impenetráveis do saber; e os gracejadores dos botequins, instigados por mim, são capazes de corrigir o estilo de um autor e de pôr a nu os seus erros mais insignificantes, em compreenderem uma só sílaba da sua escrita ou da sua linguagem; graças a mim, os jovens estúpidos dissipam o seu bom senso, tal como fazem ao seu património, antes mesmo de lhes chegar às mãos”. A sagacidade do autor irlandês não tem limites e coloca à superfície todas as percepções dos modernos do seu tempo, em relação à cultura erudita – antiguidade clássica. A fábula da aranha e da abelha vinca os dois extremos da disputa no sentido em que a abelha (antigos) – transporta “luz” e doçura a toda a humanidade, enquanto que a aranha (modernos) – é o símbolo da técnica, que se debruça unicamente com a sua individualidade.

Apesar de cónego, Jonathan Swift não deixou de usar a religião como elemento satírico, entendido na Argumentação Contra a Abolição do Cristianismo na Inglaterra e Dissertação Relativa à Estimulação Mecânica do Espírito, expondo os seus vícios e fanatismo. “Quem, vendo um mortal insignificante a discursar monocordicamente, a divagar, a debitar disparates diante de uma multidão, poderá achar plausível que tanto o Céu como o Inferno se dêem ao trabalho de influenciar ou inspeccionar a tarefa a que ele se entrega?”

A Singela Proposta serviu para o autor aumentar a lista de inimigos públicos com os seus trabalhos literários e, esta sátira é altamente corrosiva na acusação que faz à pobreza material e de espírito com que Dublin se deparava na primeira metade do século XVIII.

“Todos quantos percorrem esta grandiosa cidade de Dublin... se sentem invadidos pela melancolia ao verem as ruas, as estradas e as portas dos casebres apinhadas de mendigos do sexo feminino, pobres mulheres seguidas por três, quatro ou seis crianças, todas vestidas de andrajos e a importunarem quem passa com a súplica de uma esmola” - como solução final, para toda esta angústia citadina é proposto então que as crianças dos mendigos sirvam de refeição aos restantes habitantes. A proposta vai ao pormenor de que apenas a partir do primeiro ano é viável o comércio da carne juvenil, visto que até esse período não existe despesa para os pais. Com isto, seriam ultrapassados vários problemas sociais: fome, mendicidade, pobreza e marginalidade, estabelecendo assim a harmonia e prosperidade entre os cidadãos.

Esta distopia prende o leitor com o absurdo do pensamento humano e das suas prioridades em relação aos problemas com que se depara. Uma tão inconcebível proposta, sob o ponto de vista humano, pretende olhar para a miserabilidade social e expor as suas maiores fraquezas e necessidades. A Singela Proposta é nos servida fria e tímida, alerta-nos para as preocupações verdadeiras do ser humano, das suas aflições e ambições urgentes, somos tentados a intervir, auxiliar, e, quando já estamos ansiosos por uma solução e fartos dos enfados quotidianos, ela surge. O que esta sátira estabelece é uma incrível proximidade entre a compreensão e a maldade.

É um exercício extraordinário ler Jonathan Swift no século XXI, os desvios dos modernos perante os ensinamentos dos antigos, os fanatismos constantes e as posições absurdas a que a contemporaneidade por vezes chega, tornam estas sátiras tão próximas da realidade.

Por: Bruno Rosa Gonçalves

08
Mai20

Eurípedes - Medeia

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À semelhança de outras obras de Eurípedes (As Bacantes, Alceste, Orestes), Medeia enquadra-se no subgénero trágico, género dramático que consagrou o seu autor como ousado para a época de reprodução (século V a.C.). As obras de Eurípedes tinham a característica de escandalizar o público através da violência que as suas cenas apresentavam, isso refletiu-se na incompreensão que o autor se sujeitou na sua época devido a esse mal-estar que provocava nos espetadores. Ora, apesar de no século V a.C. o público não estar realmente preparado para assistir a peças do género, fazendo com que Eurípedes não fosse tão apreciado como outros autores seus contemporâneos, tais como, Sófocles ou Ésquilo, a história fez com que se concedesse importância ao tragediógrafo, sendo o mais lido numa fase posterior à sua existência. 

As tragédias gregas tinham em comum o facto de irem buscar à mitologia a inspiração para as aventuras dos seus heróis. Medeia é uma personagem da mitologia grega, ligada à expedição dos Argonautas que reconquistaram o velo de ouro na Cólquida, permitindo a Jasão, seu esposo, ultrapassar os seus perigos. Estes e outros feitos de Medeia, ligados à mitologia são descritos no início da peça pela Ama que começa por indiciar o conflito que se vai desenrolar entre Medeia e Jasão. Medeia apresenta alguns elementos fundamentais da tragédia, desde logo, o terrível confronto entre Medeia e Jasão, fruto da paixão e consequente traição que terá a morte como consequência, sendo esse o clímax da peça e denominador comum numa representação trágica. O coro é uma advertência para o que vai suceder e preconiza o destino das personagens. Outro traço importante da tragédia euripidiana é de introduzir um certo psicologismo às personagens, permitindo-lhes um ligeiro afastamento à soberania dos deuses, algo completamente diferente de tudo o que se produzia na altura, vemos isso na perturbação da personagem Medeia entre vingar-se do marido e salvar os filhos. 

Na obra, Jasão com a ambição que tinha pelo reino de Corinto junta-se à filha do rei Creonte, traindo a mãe dos seus filhos, Medeia. Traída e abandonada por Jasão, Medeia, preenchida por um sofrimento e tristeza tal, procura vingança exprimindo o seu ódio contra o marido e contra todos que a traíram. A protagonista simboliza a expressão da mulher contra o preconceito e a exclusão que sofria na sociedade grega, traduzida na submissão ao homem e levada a acreditar na sua inferioridade “De quanto há aí dotado de vida e de razão, somos nós, mulheres, a mais mísera criatura”. Medeia recusa o papel de vítima e de dominação do homem e contraste com a característica comum atribuída à mulher, de possuir fragilidade emocional. A sua raiva movida contra o marido provoca a morte da princesa e do rei de Corinto, bem como, o infanticídio, por força do crime cometido por ela contra os seus próprios filhos, numa crueldade e fúria sem limites, aspeto marcante das tragédias de Eurípedes. No desfecho da peça damos conta de uma certa “irracionalidade” presente no teatro de Eurípedes, movido por algo que conduz a personagem a cometer um ato incompreensível e insensato. Apesar de num momento equacionar em não cometer tamanho crime, num acesso de raciocínio perante um desgosto que também a acompanhava “Para que hei-de eu, para afligir o pai deles com a sua desgraça, infligir a mim duas vezes os mesmos males?”, acaba por o perpetuar, permitindo à cólera ultrapassar a racionalidade libertando a vingança e preservando o fundamental que procura executar na sua obstinação – causar sofrimento aos seus inimigos, vingando a sua desgraça.

Eurípedes era acusado de misoginia tendo em conta alguma aversão em relação à forma como as mulheres eram vistas, sendo estas, muitas vezes representadas como traidoras e inferiores em relação ao homem. Esta misoginia pode ser identificada quando Medeia expõe uma qualidade identificada nas mulheres transmitindo que estas não conhecem as artes nobres, mas têm sabedoria na arquitetura do mal “Além de que nascemos mulheres para as ações nobres incapacíssimas, mas de todos os males artífices sapientíssimas”. Apesar de Jasão também contribuir para essa ideia “Deviam os mortais gerar os filhos de outra maneira, e não existir o sexo feminino. E assim não haveria mal para os homens”, a conclusão da peça representa o oposto, depositando na mulher um papel de força suprema capaz de superiorizar-se ao homem, permitindo assim um olhar crítico relativo à posição feminina. Tendo em conta que as peças eram realizadas para um público masculino, a exibição do poder da mulher causou uma certa novidade no teatro grego, permitindo ao público gerar alguma condescendência perante a angústia da protagonista.

Por: Bruno Rosa Gonçalves

 

01
Mai20

Breve Estudo sobre Filosofia

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Inicialmente o homem recorreu ao Mito para explicar as origens do mundo. Mito é um conjunto de narrativas e doutrinas tradicionais dos poetas, que narram o mundo, o homem e os deuses. O surgimento do mito ofereceu segurança e conforto às sociedades da antiguidade, tornando-as esclarecidas acerca do porquê das coisas. Essa consciência materializava-se numa atitude intelectual, que procurava exaltar as forças naturais, tais como, ar, água ou o fogo, em elementos de ordem divina e em atribuir à vontade dos deuses todos os fenómenos e acontecimentos do universo. Nesta época surgem narrativas que procuram explicar o nascimento e a organização do mundo a partir de forças geradoras – cosmogonia, e, narrativas que estudam a origem dos deuses a partir dos seus antepassados – teogonias. Homero e Hesíodo, nas suas obras, “Odisseia” e “Teogonia”, respectivamente, atribuem aos deuses características humanas, sujeitando-os a paixões e sentimentos, oferecendo uma certa imperfeição a toda a sua dimensão mítica. Neste sentido, outros pensadores questionaram essas mesmas explicações, indo em busca de outras respostas. Estas narrativas alimentavam as culturas e surgem como base para o pensamento filosófico.

Quando o mito é substituído pela explicação racional, surge o nascimento da filosofia. O logos é a razão que substitui o mito, suplantando a ideia de arbitrariedade, pela ideia de necessidade, onde se entende que as coisas acontecem quando tem de acontecer. O logos que, surge inicialmente através do filósofo Heráclito e depois é seguido por outros, agrava a racionalidade implicada na relação de causa e efeito das coisas. Com isto, consegue explicar a natureza - physis dentro da própria natureza, ou seja, o mundo para estes filósofos, pode ser explicado a partir de uma única substância básica, que cria tudo o resto – arque. Arquesignifica assim o princípio de tudo, investigado pelos filósofos pré-socráticos que procuraram essa explicação, observando a physis e lá encontrando a matéria-prima criadora de tudo o que existe. Os filósofos desta época reforçam a ideia de arque, para Tales de Mileto, a água era o princípio fundador, para Anaximandro era o ápeiron – quantidade infinita de matéria, Anaxímenes, julgava ser o ar, para Heráclito era o fogo e para Pitágoras o número. Todos estes filósofos abrem o caminho da ciência, uma vez que especulam sobre a realidade tentando colocar uma lógica na descoberta do mundo. A passagem do mito ao logos permitiu a explicação da realidade em toda a sua complexidade, desde o universo físico à natureza individual do homem e da sua convivência social.

Por volta do século V (a.c.) até fins do século IV (a.c.), Atenas era o centro da cultura grega, sendo esta dominada pelo pensamento sofista. Os sofistas faziam profissão da sabedoria e ensinavam-na mediante uma remuneração, a base de ensinamento era a retórica, ou seja, a arte de persuadir, orientando a sua reflexão para o homem, para a virtude e para o seu destino iniciava-se assim um novo período da filosofia grega, o chamado período antropológico, dominado pelo problema de persuadir a unidade do homem em si mesmo e com os outros homens. Sócrates contrapõe a teoria sofista, apresentando-se como ignorante, tendo neste reconhecimento a atitude certa para alcançar sabedoria. Diz Sócrates, que só quem reconhece a sua ignorância está disponível adquirir conhecimento, pois ainda não sabe e, por não saber, vai procurar, pesquisando e interrogando o mundo. Este reconhecimento leva o homem a investigar-se a si mesmo, levando-o à percepção dos seus limites e a tornar-se justo, sendo assim solidário com os outros. Esta relação entre os indivíduos, tendo em conta a liberdade de cada um para se conhecer a si próprio, é baseada na virtude e na justiça. Para Sócrates, através do raciocínio indutivo, isto é, do exame realizado a certas afirmações particulares, somos conduzidos ao conceito. O conceito, por sua vez, exprime a essência de algo em particular, aquilo que esse algo é em verdade. Este raciocínio entra no campo da ciência, que, para Sócrates é a investigação racionalmente conduzida. Ora, aproveitando esta base filosófica, os trabalhos posteriores de Platão e Aristóteles procuram responder ao quê que é a substância e a essência, iniciando um novo período filosófico denominado por período ontológico. O pensamento platónico assenta na teoria das ideias: dividindo o mundo em duas partes diferentes, o mundo inteligível, onda habita conceitos como a verdade, a razão, a lógica ou a inteligência, e o mundo sensível, ocupado pelos olhos, pela cor ou pelas luzes. Para Platão só o mundo inteligível é real, o sensível, por sua vez, apresenta-se como transitório e ilusório. Na “Alegoria da Caverna”, o filósofo descreve que o homem, a fim de conhecer a realidade, e, não viver apenas de sombras (realidade aparente, revelada pelo mundo sensível), deverá sair da caverna onde habita conhecendo o mundo exterior (inteligível, esboço da realidade). Depois de conhecer essa realidade imaterial, a função do homem será voltar à caverna (comunidade) e explicar o que observou. O ensinamento platónico manifesta-se através da dialéctica, que consiste no diálogo da alma consigo mesma, desenvolvendo-se através da investigação racional, princípio que a humanidade deve aspirar. A filosofia de Aristóteles rejeita a ideia de dois mundos distintos. Para ele, o homem conhece apenas o que os sentidos lhe mostram, a realidade é o que existe no mundo onde vivemos, tudo o que não existe nesse mundo não vale a pena ser conhecido, pois não pode ser vivido. Portanto, a felicidade deveria ser alcançada através da contemplação da natureza. Aristóteles interpretava assim o conhecimento como sendo realista em contraste com a visão platónica que o descrevia como idealista. Actualmente, a política que é vivida em países democráticos pode ser vista como sendo aristotélica, tendo em conta que, o filósofo defendia que qualquer cidadão livre se podia dedicar à actividade política, visão contrária à de Platão ao qual achava que, para se ser político era necessário um estudo contínuo, devendo existir uma dedicação à filosofia. A visão platónica explora o conhecimento e, ao mesmo tempo, estrutura o seu próprio caminho, fazendo que a partir de um ponto ‘A’ alcancemos o ponto ‘B’, a partir da busca de condições que nos façam chegar a esse objectivo. Chegamos ao ponto pretendido através desse trabalho que se revela o conhecimento. Esta visão é a matriz das sociedades modernas em busca de objectivos e novos caminhos.

Com a queda do Império Romano a filosofia entrou no período religioso, dominado pelo problema do homem em encontrar a via de reunião com deus, a fim de alcançar a salvação. A época medieval é profundamente religiosa, onde a teologia é a principal ciência e o movimento filosófico existente é o cristianismo, onde existem dogmas, isto é, crenças ou doutrinas fundamentais e indiscutíveis que, na ortodoxia cristã, significam a verdade. Crença essa, que cada um dos seus seguidores deve assumir. Num primeiro período da Idade Média, aparece Santo Agostinho, considerado como o primeiro filósofo cristão. Através da influência do pensamento platónico admite que as ideias filosóficas são reveladas por deus e são inquestionáveis (dogma), a partir destas ideias, abre-se o caminho para a distinção entre verdades reveladas (fé) e verdades humanas (razão). Para ele, a fé é dominante em relação à razão pois deus está acima de qualquer coisa. Séculos mais tarde (mais concretamente no século XII), com o aparecimento de obras de Aristóteles trazidas para o ocidente através dos árabes, abre-se caminho para a escolástica – escolas medievais, onde a filosofia era ensinada em seminários católicos. Na escolástica a razão ajuda a compreender a fé, através da interpretação da natureza. A experiência surge como uma forma segura de garantir o conhecimento. O filósofo mais influente deste período foi Tomás de Aquino que admitiu não existir contradição entre a fé e a razão, fazendo assim que a filosofia e a teologia se fundam no seu caminho para se chegar a deus. Durante a filosofia escolástica os cristãos formaram a estrutura mental dos seus conceitos tendo por base os silogismos aristotélicos, que permitiam assumir uma lógica perfeita através interpretação de duas premissas que nos levaria a uma conclusão.

Por: Bruno Rosa Gonçalves