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Elogio Literário

Procura o elogio gratuito a várias expressões de Arte. Numa época tão dada a críticas, aqui só se pretende elogiar...

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Elogio Literário

20
Dez20

Ernest Hemingway - O Adeus às Armas

 

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Os tempos eram realmente diferentes. Voluntário na Primeira Grande Guerra, jornalista na Guerra Civil Espanhola, quatro casamentos, polémicas várias, álcool, depressão, suicídio. Ernest Hemingway envolveu a sua história pessoal com os temas dos seus livros. A intimidade soube convergir com a ficção. A imensa experiência do autor merecia um narrador. Os homens e as mulheres que ocuparam os seus livros foram descritos com tanta realidade que quase se sente a sua carne em cada página. A verdade como forma de prosa, verdade que o americano conheceu. A propósito disso, numa entrevista sobre a dimensão da obra O Velho e o Mar o escritor defendeu a técnica do iceberg, na qual, um livro apenas esboça uma ponta de conhecimento do seu autor, existe uma imensidão de matéria escondida.

Tal como Frederick Henry, também Hemingway se alistou na Primeira Grande Guerra, tendo sido colocado na frente italiana como condutor de ambulâncias. Igualmente se apaixonou por uma enfermeira, durante um internamento causado por um ataque inimigo. Catherine Barkley, personagem do romance foi inspirada em Agnes Von Kurowsky, enfermeira real que fez pulsar o coração do escritor. O amor em tempos de guerra que o autor vivenciou. A história real termina com um desfecho doloroso – depois de regressar à América o autor espera por Agnes, afim de se casarem, a espera termina em desilusão, uma vez que, a enfermeira se tinha apaixonado por um oficial italiano. No romance o desfecho não é mais colorido. O autor reinterpreta a realidade dando um outro esboço à dor de um amor que termina. A crueldade, a tristeza, o desespero que habitam no mesmo espaço onde também há amor, tudo são sentimentos humanos. O fim da guerra como o “adeus” a tudo o que se passa no palco, tanto o amor como a vileza acabam. O título original dá espaço a esta interpretação A Farewell to Arms, arms traduzido tanto serve como armas ou braços.

A prosa de Hemingway é preenchida de longos discursos e de uma linguagem acessível, contudo há nas entrelinhas um universo de múltiplas interpretações que importa ao leitor estar atento afim de retirar maior beleza da obra. “... - Sim, e ser respeitado porque não? [padre]

- Não há razão para que não o seja! [Frederick Henry]

- Não importa, mas na minha terra aceita-se que um homem possa amar a Deus. Não é motivo de troça.

- Compreendo.

- Você compreende mas falta-lhe o amor de Deus.

- Sim, isso é verdade.

- Não tem realmente amor nenhum? - perguntou ele.

- Tenho medo dele às vezes, de noite.

- Devia amá-Lo.

- Não sou muito homem para amar.

- É – disse ele - , não diga que não! O que me contava acerca das suas noites... Isso não é amor, é só paixão e luxúria. Quando amamos desejamos fazer alguma coisa por aquilo que amamos. Deseja-mos sacrificar-nos, desejamos servir.

- Não amo.

- Há-de amar. Tenho a certeza! E então será feliz!

- Eu sou feliz. Sempre fui feliz!

- Isso é outra coisa. Não o poderá compreender antes de o sentir...”

O Adeus às Armas” eleva os valores fundamentais do homem desde a escassez de princípios, à ternura mais evidente, numa viagem por aquilo que de mais brutal ele pode construir. O autor guia-nos por caminhos tão reais que nos fazem sentir as acções de forma violenta e sincera. “Houve um grande clarão e os foguetões subiram, rebentaram, flutuaram, brancos, no ar, os morteiros ergueram-se e eu ouvi as granadas, tudo isto num momento, e então ouvi dizer alguém junto de mim: 'O Mamma mia! O mamma mia!' Fiz força, torci-me e consegui libertar as pernas, e pude voltar-lhe e tocar-lhe. Era Passini, e quando lhe toquei gritou. Tinha as pernas para o meu lado, e vi, nas alternativas de luz e sombra, que estavam ambas esmagadas acima dos joelhos; uma perna fora cortada, a outra estava apenas pressa pelos tendões e um pedaço das calças, e o couto crispava-se e torcia-se como se não estivesse separado. Passini mordeu o braço e gemeu 'O mamma mia! Oh, Jesus!' e depois disse 'Dio te salve, Maria! Dio te salve, Maria! Oh, Jesus, mata-me! Cristo, mata-me! Mamma mia, mamma mia! Maria, oh Santa virgem querida, mata-me Basta, basta, basta. Ó Jesus, Santa Maria, basta! Oh oh oh oh oh' E depois num estertor, 'Mamma mia, mamma mia' E calou-se mordendo o braço, enquanto o couto da perna continuava a mexer.”

Através de situações extremas o ser humano é colocado à prova e descobre-se, existe esta espécie de redenção em Frederick Henry. “O Adeus às Armas” é a ponta do iceberg da experiência de Hemingway na Primeira Grande Guerra e enaltece também o que de melhor a sua literatura tem para oferecer. Realmente os tempos eram outros, mesmo assim, a sinceridade discursiva, a experiência exotérica, a coragem e a sobriedade narrativa são elementos que não deveriam ser esquecidos na literatura actual.

 

Por: Bruno Rosa Gonçalves

 

15
Nov20

Julio Cortázar - Todos os fogos o fogo

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Numa auto-estrada que liga Fontainebleau a Paris, devido a um congestionamento, todos os condutores que regressam às suas casas vêem-se obrigados a permanecer na estrada, durante horas, dias, semanas... Durante essa desafortunada espera os motoristas enfrentam um conjunto de privações e desgraças expectáveis a este cenário caótico: fome, calor, frio, enfraquecem, morrem. Deste modo, organizam-se de forma a criar uma espécie de vários “estados”, com líderes que tentam garantir as necessidades básicas dos seus grupos. Há lutas, paixões, desconfianças, enfim, tudo o que existe no dia-a-dia das nossas vidas.

Este conto “A Auto-estrada do sul” é um excelente cartão de visita da obra do argentino Julio Cortázar. A mistura da realidade e da fantasia num cruzamento inesperado que agoniza o leitor perante a necessidade de atribuir fantasia a algo que, de tão caótico, não se poderia esperar. Não interessa o motivo da paragem na auto-estrada, talvez um avião que embateu em vários veículos, ou um enorme acidente em cadeia, não se sabe, o cenário é claramentekafkiano, desenvolve-se então um microcosmo, onde a única preocupação é sobreviver. Cortázar, genialmente, torna um simples regresso a casa, após um passeio veraniano numa luta pela sobrevivência, do inesperado surge o caos. Esta desconstrução ultrapassa a mera narrativa, duas forças surgem nas entrelinhas: o movimento e a paragem. A rotina é movimento, percorremos estradas desligados do que nos rodeiam, apenas temos a função de chegar a um objectivo, nesses instantes em que nos movemos não sentimos, não pensamos, actuamos como autómatos que executam a sua função passiva de chegar a algum lado. É então que se pára, quando cessa o movimento, a vida adquire outro ritmo, n' “A auto-estrada do Sul”, a paragem forçada por algo externo, leva os motoristas a estreitar laços e comunicarem, conhecendo-se por fim, a paragem como revelação humana. No fim do conto novamente movimento, tudo volta ao normal, os carros voltam a deslocar-se, as relações desmoronam “corria-se a oitenta quilómetros em relação à luzes que aumentavam mais e mais, sem que já se soubesse porquê tanta pressa, porquê esta corrida na noite entre carros desconhecidos onde ninguém sabia nada dos outros, onde toda a gente olhava fixamente para a frente, só para a frente”. Fica-se com a sensação de que apesar do aparato e da indeterminação de tempo em relação à exactidão do período de paragem no trânsito, essa experiência é tomada por um dos motoristas como o grande significado da vida, a convivência entre humanos, depois vem novamente o movimento que interrompe tudo isso e nos guia para a frente.

Em “A saúde dos enfermos”, deparamo-nos com uma família que protege a sua matriarca das notícias mais desagradáveis como a morte do seu filho Alejandro. Para isso, dão-lhe vida, inventando histórias para alimentar a farsa e proteger a sua saúde vulnerável. O conto avança no limbo de se descobrir ou não a verdade, a família vive uma “piedosa comédia”, a mentira serve como anestésico útil da dor. Sobre a questão da verdade, também se ocupa o conto “Instruções para John Howell”, um espetador é convidado a participar na peça que estava a assistir, dando-lhe continuidade. Apesar de contrariado é obrigado a entrar e aí a realidade funde-se com a ficção.

O fluxo de consciência está presente no conto “Menina Cora” onde nos surgem cinco narradores diferentes que desenvolvem a narrativa. Num hospital, um jovem que vai ser operado, sente uma atracção por uma das enfermeiras que o trata, as suas sensações mais íntimas são expostas de uma forma muito realista, em cada passagem é revelado o pensamento de cada uma das personagens. O autor recorre ao interseccionismo, para nos oferecer um perfeito conhecimento de todos os intervenientes, como se entrássemos nas suas mentes e reconhecêssemos as suas intenções, por outro lado, o conto consegue destacar um género de jogo entre aparência e realidade.

A ilha ao meio-dia” é a história de Marini, um comissário de bordo, que a dada altura nos seus voos, descobre uma ilha no meio do mediterrâneo em forma de tartaruga, na qual sente um desejo profundo de a visitar. O meio-dia é a hora em que avista sempre a ilha dos céus e essa obsessão leva-o a procurá-la, despertando nele uma inércia a tudo o que o envolve, nutrindo unicamente o encanto de visitar a pacata ilha piscatória. Marini, nome originário do mar, trabalha nos céus e descobre a terra em forma de animal, tudo isto ao meio dia, como medida temporal do equilíbrio. “A ilha ao meio-dia” reflete sobre as pretensões ao desconhecido e à liberdade, o destino, como elemento circunstancial e a solidão, necessidade última do ser humano de encontrar a paz consigo mesmo.

No conto que dá nome ao livro “Todos os fogos o fogo” seguimos duas histórias em simultâneo que irão desembocar num desenlace semelhante, uma na Roma Antiga, outra numa Paris contemporânea. O amor como sentimento fervoroso, catalisador de fogos nas emoções de quem os sente é tragicamente interpretado de forma literal.

Che Guevara é retratado em “A Reunião”, partindo de uma espécie de diário confessional, seguimos os pensamentos do guerrilheiro argentino numa etapa da revolução cubana. O conto diferencia-se dos outros que preenchem o livro, no entanto faz um reflexo profundo aos valores da revolução e termina com uma certa esperança.

O outro céu” é o conto menos “mágico” e mais realista. O narrador de modo autodiegético relata o seu percurso pelas ruas de Paris numa existência dupla, por um lado assume uma vida ideal, com emprego na bolsa, noiva à medida, boa família, por outro, percorre as ruas sujas da cidade, por entre galerias manhosas, junto de prostitutas e vagabundos. Mais uma vez o jogo de aparências salta para primeiro plano, bem como, as nossas aspirações mais profundas que conspurcam a nossa alma. O céu é o mesmo que pode ser visto de diferentes lugares (perspectivas) o que o torna diferente.

Os contos de Cortázar são terrenos, tentadores e, quando menos se espera, chocantes de forma grotesca e mágica, com capacidade de derreter a percepção do leitor e até perturbar. Nos vários contos de “Todos os fogos o fogo” encontramos o melhor de Julio Cortázar, histórias curtas, realismo atropelado pelo insólito e inesperado, jogos de sensações e de temas, direcções implícitas, indeterminação do tempo, conjunto de características que fazem jus a um dos maiores expoentes do realismo mágico que o século XX teve.

Por: Bruno Rosa Gonçalves

19
Out20

Charles Bukowski - Pão com Fiambre

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Se vivesse hoje, Bukowski estaria envolvido, muito possivelmente, em grandes polémicas, estaria vulnerável aos ataques de uma sociedade “assanhada” que não sabe distinguir estilisticamente a obra do autor. As definições mais vulgares atribuídas à sua obra são as de escritor maldito, sujo, burlesco, anti-romântico, por diante. De facto a obra de Charles Bukowski não obedece a padrões académicos, não está de certa forma comprometida, sendo até classificada como anti-sistema. Numa linguagem directa, com diálogos constantes, realismo cru, condimentado com um vernáculo constante, assim se caracterizam os vários livros do autor germano-americano. Os seus textos fazem parte de ocorrências reais, sendo portanto autobiográficos, envolvendo o seu alter ego, Henry Chinaski. Prostituição, lutas de bares, mulheres, precariedade, alcoolismo, cigarros, apostas, escrita, enfim, uma data de temas que abordou e que lhe dão fama de escritor marginal. Pela natureza dos seus temas e pela forma como os narrou existe uma clara mistura entre a vida e a narrativa, evocando esse passado duro, imiscuído na delinquência, próximo da famosa geração Beat (algo que Bukowski sempre se negou de pertencer) e próximo também dos falhados, dos desfavorecidos e dos perdedores de uma sociedade que Bukowski descreveria como doente. Simbiose perfeita com os seus leitores que se identificaram ao longo de gerações perante a génese do seu corpo literário e, também de forma evidente, pela natural liberdade de dizer o que pensa sem medo de represálias. O seu epitáfio “Don't Try” alude a todos esses excessos que perseguiu e desmoraliza os seus fãs a persegui-lo, ou não!

Pão com Fiambre é um livro publicado em 1982, autobiográfico, cujo narrador e protagonista é Henry Chinaski, o seu célebre alter ego. Do ponto de vista literário classifica-se como um bildungsroman – um romance em que a personagem principal se desenvolve ao longo da narrativa desde o início de vida até à maturidade, onde o leitor consegue captar as suas transformações físicas e psicológicas.

As primeiras memórias de Henry Chinaski são ponto de partida de Pão com Fiambre, e é nos primeiros capítulos que identificamos a estrutura familiar, as origens alemãs, a dura educação paterna - semente essa que influenciará o carácter do protagonista “- Vês esta cicatriz na minha mão? - perguntou o meu pai. - É o sítio onde a Elinor [sua irmã] me espetou um lápis afiado quando eu era muito novo. A cicatriz nunca desapareceu. O meu pai não gostava de pessoas. Não gostava de mim.” A inimicícia paterna e as consequentes tareias que este lhe infringia acabariam por ser marcantes em Chinaski, moldando-o a um carácter frio, violento, recheado de ódios, fatalista e marginal “Gostava de ser apontado como um dos piores. Gostava de ser o mau da fita. Qualquer um podia ser o bonzinho, para isso não era preciso ter tomates... Eu gostava da zona, tinha árvores a fazer sombra, e como algumas pessoas tinham dito que eu era feio, preferi sempre a sombra ao sol, a noite ao dia”.

Além de todos os conflitos familiares, o ambiente escolar era igualmente tumultuoso, haviam constantes brigas entre colegas e Henry lutava para se assumir “Vínhamos todos de famílias vítimas da depressão, estávamos mal alimentados, mas mesmo assim tínhamos crescido e ficado fortes. Penso que a maioria era pouco acarinhada pela família, mas também não pedíamos carinho ou mimo a ninguém... Era como se tivéssemos crescido demasiado rápido e estivéssemos cansados de ser crianças. Não tínhamos qualquer tipo de respeito pelos mais velhos. Parecíamos cães sarnentos”. Entende-se portanto que um carácter alimentado pela raiva e desprovido de afecto só pode gerar uma alma obscena e inconformada.

A feiura tão comum em Bukowski é-nos sugerida pelas passagens em que o protagonista agoniza perante a luta contra o acne juvenil que o atormenta ao longo de largos anos “Colocava-me muitas vezes em frente ao espelho, a pensar quão feia uma pessoa poderia ficar. Olhava com incredulidade para a minha cara, depois para as minhas costas. Era horrível”. Durante essa clausura, Henry encontra os prazeres da literatura e descobre autores marcantes, admitindo serem os únicos homens que falavam consigo. D. H. Lawrence, Huxley, Sherwood Anderson, Gorky “e depois apareceu o Hemingway. Que maravilha! Esse, sim, sabia escrever uma frase. Era uma alegria. As palavras não aborreciam, punham-me a cabeça a latejar. Se o lêssemos e nos deixássemos levar pela magia, conseguiríamos viver sem dor, com esperança, acontecesse o que acontecesse”. Detectamos nomes que influenciaram fortemente Bukowski, a acrescentar a esta lista um dos seus autores predilectos, John Fante.

A acção decorre desde os anos vinte até chegar aos quarenta do século XX. Neste período ocorreu a Grande Depressão e o início da Segunda Guerra Mundial, Henry Chinaski “não sabia o que queria”, não tinha particulares objectivos e reflete as mesmas perspectivas da sua geração – “os fracos” da sociedade americana viviam no limbo de um horizonte miserável, enquanto que os que cediam à ordem (“os fortes”) iriam ser recrutados para fazerem a Guerra “À minha volta gravitavam os fracos em vez dos fortes, os feios em vez dos bonitos, os fracassados em vez dos vencedores. Parecia que estava destinado a viver a vida com eles”. O livro termina com o massacre de Pearl Harbor como cenário exterior, dando uma previsão fatalista ao que viria depois. Bukowski reflecte uma outra visão do sonho americano.

Henry Chinaski é alguém em conflito com a sociedade, não se encaixa nos seus padrões, sendo perverso o facto de ter sido esse mundo que o gerou. Pão com fiambre é talvez o livro mais denso e introspectivo de Bukowski. Para quem julga que a obra de Bukowski é muito superficial, estando mais familiarizado com os contos e os romances, recomenda-se a leitura da sua obra poética, onde o americano se revela mais cerebral e íntimo, tal como no poema “Bluebird”:

Há um pássaro azul no meu coração

que quer sair

mas eu sou demasiado duro com ele,

digo, fica aí,

eu não vou deixar que alguém

te veja.

 

Há um pássaro azul no meu coração

que quer sair

mas eu despejo whiskey nele e inalo

fumo de cigarro

e as putas e os empregados de balcão

e de mercearias

nunca saberão

que ele está

lá dentro.

 

Há um pássaro azul no meu coração

que quer sair

mas eu sou demasiado duro com ele,

digo,

fica quieto,

queres destruir-me?

Queres arruinar-me os meus trabalhos?

Queres acabar com as minhas vendas de livros

na Europa?

 

Há um pássaro azul no meu coração

que quer sair

mas eu sou mais esperto, deixo-o sair

em algumas noites

quando todos dormem.

Digo, eu sei que tu estás aí,

por isso,

não fiques triste.

 

Depois volto a colocá-lo de volta,

mas ele canta um pouco

lá dentro, eu ainda não o deixei

morrer

e nós dormimos juntos assim

como outros

num pacto secreto

e isso é bom o suficiente para

fazer um homem

chorar,

mas eu não choro

e tu?”

Por: Bruno Rosa Gonçalves

 

27
Set20

William Shakespeare - Hamlet

williamshakespeare.jpg

Shakespeare está para a literatura mundial assim como Hamlet está para o domínio imaginário da personagem literária: um espírito que se estende por toda a parte, um espírito ao qual nada nem ninguém consegue impor limites” É assim que o famoso crítico Harold Bloom vê a obra e o autor, no seu livro O Cânone Ocidental define Shakespeare como sendo “o cânone” superiorizando-se a todos os outros escritores ocidentais pela sua “acuidade cognitiva, energia linguística e poder de invenção”.

Existe um certo mistério que reveste a figura de Shakespeare, ao qual, pouco se conhece da sua vida privada e das suas convicções pessoais. Pertence ao período isabelino, altura em que o teatro adquiriu na coroa inglesa um papel muito importante de prestígio. Esse fascínio foi potenciado através de muitas das suas obras tais como, Hamlet, MacBeth, Romeu e JulietaRicardo III, O Mercador de Veneza, entre muitas outras.

Hamlet é uma tragédia de V actos que representam o regresso do príncipe da Dinamarca a Elsinore, depois da morte do Rei, seu pai. O trono do reino foi ocupado pelo seu tio que desposou a rainha viúva, Gertrud. No I acto da peça temos o surgimento do fantasma do Rei - personagem mística que antecipa a tragédia, surge do reino dos mortos para pedir vingança “Se tens em ti sentimentos, não admitas, não deixes o leito real da Dinamarca ser uma cama de luxúria e incesto funesto”. O jovem príncipe torna-se calculista e empenha-se em estabelecer a justiça, vendo na sua mãe e no seu tio Claudius os principais alvos.

No II acto, Hamlet finge-se de louco e os reis procuram perceber os motivos que conduzem o príncipe ao desânimo, para isso, instigam os seus cortesãos, Guildenstern e Rosencrantz, e Polónio (conselheiro) a averiguar. O príncipe desconfia dos seus pares e das intenções das suas perguntas “Mandaram-vos cá chamar, e há uma espécie de confissão no vosso olhar que a modéstia não sabe encobrir” e trabalha na peça “A Ratoeira” que será apresentada ao Rei, para que assim possa extrair o sentimentos de culpa que o incriminará ”A peça é a coisa com que vou enlaçar a consciência do Rei”. O teatro como ferramenta crucial para desvendar mistérios, a arte a combater as entranhas da consciência humana.

Defraldados os intentos do Rei em expropriar os pensamentos de Hamlet, assiste então à peça por ele patrocinada onde cai na “ratoeira” e perturba-se com a cena de assassinato exposta na peça, pressentindo a semelhança com a sua história. Neste III acto o Rei assume o seu crime e Hamlet atormentado com a espionagem que lhe é dirigida, assassina Polónio. “A Ratoeira” levada ao sentido literal, onde um “rato” é morto pela espada.

Seguidamente o Rei manda o príncipe para Inglaterra de forma a fugir ao crime por si cometido. A esta vontade estava subjacente o interesse perverso de enviar Hamlet para a morte. Algo que este descobre a tempo. No mesmo acto, Laertes regressa à Dinamarca com vontade expressa de vingar seu pai Polónio. Nas últimas cenas, Ofélia, a “musa” do príncipe suicida-se.

Finalmente, no V acto, tendo o cemitério simbolicamente como fundo, cenário onde Ofélia era enterrada (como sendo o enterro do amor), Hamlet e Laertes confrontam-se. O duelo é adulterado pelo Rei tendo este como único objectivo a morte do protagonista.

O vigor expressivo é comum a todas as personagens da obra, o que contribui para a riqueza em absoluto dos diálogos e dos solilóquios. Para a posteridade ficarão várias passagens virtuosas como o momento no início do último acto onde Hamlet fala para a caveira de Yorick (um antigo bobo da corte) “Ah, pobre Yorick! Mil vezes às costas me levou, e agora – que abominável me é isto à ideia. Daqui pendiam os lábios que um ror de vezes beijei. Onde estão agora a sua galhofa e cabriolas, aquelas cantigas e assomos de chacota, que costumavam lançar toda a mesa num tumulto? Não há agora ninguém que zombe do teu sorriso? Vai agora até à câmara de uma dama e diz-lhe que, pinte-se ela com pó espesso de um dedo, com essa tua figura se há-de finar. Fá-la rir disso”. O autor leva-nos a um pensamento profundo sobre a nossa insignificância em que depois de mortos, um simples coveiro nos atira o crânio com a mesma insignificância com que joga um simples objecto “Aquela caveira teve uma língua lá dentro, e soube em tempos cantar. Olha como este vilão a deita ao chão, como se fosse a queixada de Caim, que foi o primeiro homicida. Isto podia ser a cabeça de um político, de quem este patego se mostra agora superior, alguém que foi capaz de até Deus tornear, não podia?”.

Hamlet é a personagem que se perturba com a consciência e levanta questões inerentes à existência, quase como uma personagem das obras de Platão “Ser ou não ser, eis a questão: se é mais nobre no espírito sofrer as fundas e flechas da fortuna ultrajante, ou brandir armas contra um mar de agravos, e, opondo-os, fazê-los cessar. Morrer – dormir, mais nada; e num sono dizer que cessou o torno no peito e os mil choques naturais de que a carne é herdeira: eis uma consumação que devotamente se busque. Morrer, dormir; dormir, porventura sonhar – ah, é esse o estorvo, pois nesse sono da morte que sonhos virão, quando nos desligarmos deste liame mortal, nos deve fazer pensar – é esse o aspecto que calamidade faz de tão longa vida”.

A paixão entre o protagonista e Ofélia é fria e fugidia, num primeiro momento é revelada uma aproximação e afecto entre ambos, no entanto, perante a iminência da traição de Ofélia, Hamlet traça um paralelismo entre a beleza e a honestidade. “Que sois bela e honesta, não busque a honestidade trato com a beleza... Pois mais facilmente torna o poder da beleza a honestidade chula do que pode a honestidade fazer da beleza algo assim parecido”. A beleza que não cega os principais desígnios do homem e o homem que não se deixa afectar pela emoção na procura dos seus compromissos com a verdade, e esses são os realmente belos.

A própria função do actor é consciencializada por Hamlet, na passagem onde prepara a peça para apresentar ao Rei, apresenta-nos uma exímia descrição ao que é a profunda manobra de um artista “Não é monstruoso que este actor aqui, por uma ficção apenas, um fumo de paixão, tenha forçado tanto a alma ao que concebeu que, por ela alterado, a cara lhe empalidece, de lágrimas nos olhos e tumulto no aspecto, a voz tolhida, e todos os actos moldando-se na forma ao que imaginou? E tudo por nada”.

No fim tudo é tragédia, a morte ocupa o palco e a vida termina. Hamlet personifica o ser perturbado e consciente - como se fosse impossível a intimidade não atrair tormento – persegue uma causa única que seria a justiça aos olhos dos acontecimentos. O fantasma do Rei marca a peça, torna-a sombria desde início, é a causa principal da aflição do jovem Hamlet, deixa-o louco e controla a sua actuação. Será que os fantasmas existem no mundo exterior ou apenas estão nos nossos olhos?

Com a leitura de Hamlet, Shakespeare alerta-nos para a finitude do ser e das suas perturbações constantes, o que nos deixa “felizes em não sermos demasiado felizes”.

Por: Bruno Rosa Gonçalves

05
Set20

Nathaniel Hawthorne - A Letra Encarnada

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Quando as portas da prisão se abrem e a acusada Hester Prynne delas sai, o narrador refere-se ao espaço envolvente com a seguinte descrição: “Em frente deste feio edifício, e entre ele e o centro da rua, estava um espaço coberto de erva, de ervas ruins, daninhas e desagradáveis à vista, que evidentemente tinham achado qualquer coisa de seu no solo que tão cedo tinha produzido a flor negra de uma sociedade civilizada, uma cadeia. Mas de um lado da entrada, e enraizada quase no limiar, havia uma roseira brava, coberta, neste mês de Junho, de suas flores delicadas, que pareciam oferecer a sua fragrância e beleza frágil ao preso que entrava, e ao criminoso condenado quando saía para a morte, como a provar-lhe que o coração profundo da Natureza sabia ainda sorrir-lhes e ter por eles compaixão”. Um edifício repugnante que serve condenados e almas perdidas, que traduz a falha social e os desvios humanos; as ervas daninhas como revestimento do espaço envolvente, como as almas que participam na permanência dos costumes sem nunca os molestar; e uma roseira brava, lúcida, delicada e luminosa. O velho mundo – a cadeia antiga, construída noutros tempos, antiquada em relação à época moderna, - que contrasta com o “Novo Mundo” - ao mundo da acção que se move para as portas da prisão para delas ver sair Hester Prynne, condenada por adultério. Roger Chillingworth é a figura que paira ao longo da narrativa como sendo a sombra do conservadorismo, sempre presente e sempre velha. Hester é a roseira brava que emerge no meio de tantas ervas daninhas, se quisermos, a letra encarnada, bordada no seu peito, é a única luz que flui num tempo em que o puritanismo predominava e apagava qualquer fogo. Entenda-se fogo por amor ou qualquer outra intumescência emocional. Para vilipêndio dos presentes, a mulher adúltera caminha até ao cadafalso onde terá a sua sentença.

Uma “letra encarnada” como que “impressa na carne” é a ferida que a protagonista transporta, dessa ferida nasceu uma filha, Pearl, filha do mal = pecado. O pecado como desígnio e sentença das almas superiormente moralizadas. Hester, cidadã de Boston, pecadora, tal como Eva no Paraíso. Na obra transparece uma mensagem de esperança e redenção “aos olhos da Pureza infinita, todos somos igualmente pecadores”. Hester, como “profetiza predestinada”, que faz mover o velho mundo conservador e castigador, entrega-o às questões do novo: “porque sou tão infeliz?” abrindo assim as almas à escuta do coração.

A obra é publicada em 1850 e, tendo em conta os caminhos que a literatura na segunda metade desse século tomou, é possível Edgar Allan Poe e Charles Baudelaire terem lido esta obra e daí retirarem alguns elementos que enriqueceram a sua notoriedade literária. Veja-se a sinestesia presente na representação que Pearl tem para a sua mãe – por um lado é o fruto de amor verdadeiro e motivo de ternura, por outro, uma criatura amaldiçoada, que transporta em si o mal e o pecado. Pearl e o bordado no peito de Hester, unificam-se no mesmo significado. O amor, mesmo verdadeiro, é condenável e motivo de escárnio. Estas especificidades na obra de Hawthorne encontram-se mais tarde junto da geração simbolista.

Uma das grandes riquezas que encontramos na literatura é a capacidade que a linguagem possui no encontro com as nossas emoções. Na Letra Encarnada, temos um bom exemplo dessa identificação com o íntimo colectivo americano. É como a dor no peito que o padre Dimmesdale continuamente sente, ou como o sinal que Hester traz sempre consigo. Se olharmos para a sociedade americana de hoje descobrimos alguns sinais de aproximação ao puritanismo descrito no livro: os escândalos sexuais recorrentes, as descriminações e histerias étnicas, a mistura tóxica do belo com o gosto e de autor com a obra. Atente-se na passagem de Hawthorne sobre o patriotismo americano na figura da sua águia “com a costumada incerteza de génio que caracteriza esta pobre ave, parece ela, pela ferocidade do bico e do olhar, e a atitude agressiva geral, ameaçar de mal a comunidade inofensiva, e sobretudo avisar todos os cidadãos receosos que não entrem no edifício que suas asas abertas cobrem. Por feroz, porém, que ela pareça, há muita gente que está neste mesmo momento pensando em acolher-se sob a sua asa federal, imaginando que o seu seio tem a macieza e a comodidade de uma almofada de penas. Mas ela pouca brandura mostra, até no melhor dos seus modos, e mais tarde ou mais cedo – cedo, as mais das vezes, antes que tarde – costuma afastar os seus filhos com um arranhão da sua garra, um golpe do seu bico, ou uma ferida rasgada das suas setas farpadas”.

Por: Bruno Rosa Gonçalves

 

17
Ago20

Giotto di Bondone - Invidia

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O pintor florentino Giotto (1266 - 1337) insere-se no movimento gótico pré-renascentista e é reconhecido como o introdutor da perspectiva na pintura. Esta característica teria grandes repercussões na pintura renascentista.

A obra Invidia pertence a um conjunto de afrescos que, no seu conjunto se deu o nome de “As Virtudes e os Vícios”, realizados na capela Arena (nome original: Capella degli Scrovegni) em Pádua. Nessa composição para além da Inveja foram também pintados outros vícios humanos como: Ira, Injustiça, Traição, Desespero, Inconstância e Estultícia; como virtudes foram representados: Temperança, Força, Prudência, Fé, Justiça, Caridade e Esperança.

Invidia é a representação pictórica da Inveja descrita séculos antes por Ovídio nas “Metamorfoses”, a partir da célebre passagem da Deusa Minerva pela casa da Inveja: “A casa dela estava escondida no fundo de um vale, sempre sem sol, que jamais o vento tocara, uma casa triste, toda a abarrotar de um frio entorpecedor (…) vê a Inveja, banqueteando-se com carne de víbora, com que alimenta a sua maldade (…) a lividez cobre-lhe o rosto, todo o corpo é escanzelado; o olhar nunca é frontal, os dentes amarelados de sarro, o peito esverdeado de fel, a língua encharcada em veneno. Jamais um riso, a não ser quando vê alguém sofrendo, jamais dorme, agitada por angústias que a fazem desperta. Com desagrado vê os sucessos dos homens e, ao vê-los, definha; e rói os outros e também a si própria se rói, e este é o seu tormento.”

Com base na descrição deixada pelo poeta romano, a representação desse vício por parte de Giotto é então feita a partir de uma velha. Da sua boca vê-se sair uma serpente. Esta, por sua vez, não ataca ninguém a não ser a própria velha que a expeliu, procurando mesmo cegá-la através do veneno que possui. A serpente simboliza uma forma do pecado e perfídia sobre as intenções, a injecção do seu veneno em nós próprios é a nossa cegueira. Compreendemos igualmente que é o nosso próprio veneno que nos corrói, uma vez que a víbora habita em nós. O lugar que a velha ocupa é sombrio, a completa escuridão preenche a entrada da sua porta. As orelhas são grandes de forma a captar várias informações do mundo circundante. A sua mão aperta com vigor a sacola do seu tesouro, o punho está cerrado, o que denota o ímpeto em preservá-lo a todo o custo. As chamas inflamam o seu corpo, corroendo-o e acompanhando todo o seu caminho.

A velha como realização antropomórfica de um vício que também é antigo no comportamento humano. Os afrescos de Giotto comunicaram com a obra de Ovídio dando cor e expressão à força das palavras. Esta representação pictórica ofereceu um outro tipo de expressão e de entendimento a algo que é abstrato, emocional.

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Por: Bruno Rosa Gonçalves

22
Jul20

Gustave Flaubert - Madame Bovary

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Para um objecto artístico ser plenamente saboreado convém conhecer-se a sua época e o trajecto do próprio autor. Em primeiro lugar, Flaubert foi um escritor altamente minucioso na composição das suas obras, intensamente preocupado com a componente estética e por conseguinte com a qualidade de cada frase. Daí os seus trabalhos durarem muitos anos a serem concluídos, Madame Bovary foi um romance que durou cinco anos a ser escrito e foi terminado em 1856. O escritor francês nascido na cidade de Ruão foi um importante impulsionador do realismo, comprometeu-se em relatar nas suas obras a realidade quotidiana sobretudo das classes médias baixas francesas. Madame Bovary, além de ter assumido um papel fundamental na aparição do realismo na literatura trata de assuntos controversos para a época em que foi escrito, tendo o próprio autor sofrido de censura da parte de alguma comunicação social. A obra foi acusada de imoral e obscena por ter narrado actos adúlteros e exposto sentimentos do foro privado e familiar, acusações naturais se pensarmos numa sociedade francesa bastante conservadora acabada de sair da revolução em 1848.

Madame Bovary foi escrito a um ritmo calmo e ordenado, conhecemos as personagens pelas suas acções e por alguns dos seus pensamentos. A linguagem é directa e intencionada a revelar a verdade como ela é sem os grandes arrumos e artífices que o romantismo apresenta. Esta passagem do romantismo para o realismo também é sentida na dicotomia da personagem principal, por um lado persegue um ideal romântico inspirado nas personagens dos livros que lia, sentindo como elas as mesmas alucinações prazenteiras, por outro, vive uma vida modesta, sem grandes feitos, e por isso não sente prazer algum.

Emma Bovary apresenta características balzaquianas, ao longo da história adquire características de uma mulher experiente no que concerne à vida amorosa, descobrimos isto através da interpretação de Léon, seu amante: “Léon não ousava fazer-lhe perguntas; mas, ao descobri-la tão experimentada, pensava que ela deveria ter passado por todas as provas do sofrimento e do prazer. O que o encantara outrora passou assustá-lo um pouco”. Os desejos idílicos e a constante monotonia da realidade levam-nos ao estado de “bovarismo”, termo assumido pelo filósofo Jules de Gaultier anos mais tarde. Emma torna-se uma eterna insaciada, busca o deleite através da sua imaginação e esbarra na não correspondência com a sua vida social e emocional. Este perturbação coincide com a visão de um amor ideal, que por ser ideal, ofusca a própria realidade, transformando a paixão em mera utopia “Não era feliz, nunca o tinha sido. De onde vinha então essa insuficiência da vida, esse apodrecimento instantâneo das coisas onde se apoiava?... Mas, se havia em alguma parte um ser forte e belo, ma natureza valorosa, cheia ao mesmo tempo de exaltação e de requintes, um coração de poeta sob uma forma de um anjo, lira de cordas de bronze, lançando para o céu epitalâmios elegíacos, porque seria que ela não o havia de encontrar? Oh! Que impossibilidade! Nada, de resto, valia a pena ser procurado, tudo mentia! Cada sorriso ocultava bocejos de tédio, cada alegria uma maldição, cada prazer o seu desgosto, e os melhores beijos só deixavam nos lábios o apetite irrealizável de uma voluptuosidade mais sublimada”.

A negação constante de felicidade por força de pretensões exageradas como revela no entendimento dado ao amor, algo que “devia surgir inopinadamente, com grandes lampejos e fulgurações – furacão dos céus que cai sobre a vida, a subverte, arranca as vontades como se fossem folhas e arrasta para o abismo o coração inteiro” ou na visão do adultério como “qualquer coisa de maravilhoso onde tudo seria paixão, êxtase,... os píncaros do sentimento” que lhe iluminariam “o pensamento como relâmpagos”.

A leviandade, o desencanto familiar, as aspirações burguesas, as paixões adúlteras, as regras com a aparência ou a falsidade são os principais traços de personalidade de Emma que contrastam inteiramente com os do seu esposo Charles Bovary, que vivia satisfeito com a realidade, sendo ingénuo ao ponto de não perder forças em encontrar a verdade. Apesar de ser das personagens mais íntegras da obra entrega-se ao laxismo que o faz não interpretar o que está para além do que vê. É possível existir uma simetria entre Charles Bovary (pessoa dada à bondade) e a derrota social a que esse comportamento conduz. Personagens como Rodolphe - galante e perverso; Léon - lírico e idílico, numa primeira fase, e arrebatador e jovial, num último momento; os habitantes de Yonville, na sua maioria de costumes provinciais e puritanos e o Sr. Homais, ambicioso, arguto e interesseiro; criam um retrato da sociedade francesa. Eis uma das feridas causadas por Flaubert aos costumes franceses do século XIX – desvendar o que estava para além das aparências, construir uma teia de personagens em que cada uma mostrava os sonhos e/ou aspirações mais íntimas da sociedade. Essa tal como era não estava disponível de aceitar esse incómodo espelho. Muitas grandes obras são assim, só mais tarde conseguem ser digeridas e apreciadas.

Seria injusto avaliarmos o comportamento de Madame Bovary através das amarras morais predominantes no século XIX (ou que se mantém até hoje), não interessa ajuizar se é aceitável ou não o comportamento da personagem, se a leviandade é corrigível e deveria ser punível. O que interessa sublinhar é que Flaubert soube navegar em mares profundos da consciência humana e trouxe à tona realidades duras de perceber - a intimidade dos nossos sonhos e desejos como veículo literário.

Por: Bruno Rosa Gonçalves

27
Jun20

Hugo Von Hofmannsthal - A Carta De Lorde Chandos

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Hugo Von Hofmannsthal foi um intelectual austríaco que, além de compor poemas e outros escritos literários, também escreveu libretos para óperas do conhecido músico Richard Strauss. Conviveu de perto com a vida boémia e intelectual da sua cidade (Viena) tendo conhecido nomes como Hermann Bahr, Stefan George, Rainer Maria Rilke, Stefan Zweig e Karl Krauss. É associado à corrente artística fin de siècle, cujos autores influenciavam com as suas ideias a chegada de um novo século.

Por volta de 1901, o autor austríaco sofre uma crise intelectual que o faz desligar-se das letras e da carreira académica e é neste ambiente que nasce a sua obra A Carta a Lord Chandos. Apesar de exprimir o estado de alma do seu autor, a carta é ficcional, escrita por um tal de Philipp, Lord Chandos, nobre isabelino ao conhecido pensador inglês Francis Bacon. Esta epístola antecipa a nova corrente artística que o século XX acrescentou: modernismo.

A missiva apresenta um tom confessional onde Lord Chandos responde a Francis Bacon explicando as razões que o levaram a afastar-se da literatura durante os últimos anos. Tal como a sua personagem, Hofmannsthal sentia-se ausente e perdido no seu tempo, não reconhecendo na literatura qualquer forma de expressão que contivesse as palavras certas “perdi por completo a faculdade de pensar ou de falar consequentemente sobre o que quer que seja”. Os seus desejos e objectivos “dançavam todos à sua frente como mosquitos melancólicos num muro sombrio onde o sol forte dos dias felizes já não bate”. Para Lord Chandos, os princípios da harmonia estóica e epicurista apesar “do jogo maravilhoso das suas relações” já não bastavam para um profundo encontro consigo próprio. “Tudo se me descompunha em fragmentos que, por sua vez se fragmentavam, e nada se deixava possuir por um conceito” A fragmentação do sujeito, uma das principais características que irá caracterizar a cultura mundial no novo século que se iniciava. Através destas múltiplas interpretações de si próprio o nobre inglês chegaria ao seu desejo mais profundo “Nosce te ipsum” [Conhece-te a ti próprio] – seguindo este adágio de Tales de Mileto, interpretaria o mundo material e espiritual como uma unidade em si mesma.

As palavras tornaram-se “falsas” e “inconsistentes”, já não serviam para explicar o sentido do mundo, a linguagem percorria sentidos unívocos e tornava-se vazia. O espírito de Chandos “forçava-se a ver com uma proximidade inquietante” e com isso não conseguir descrever as várias leituras que encontrava para o mesmo objecto, pois este poderia adquirir múltiplas percepções.

Hofmannsthal, mergulhado na sua personagem, usa a linguagem para descrever o seu mutismo. Nesse exercício incorrigível de olhar para dentro, as palavras ainda não existiam e, as que existiam também elas possuíam outros significados. A partir desse momento muitos outros autores se lançaram nesse desafio, de olhar “à lupa” o homem e procurar desvendar um pouco mais de verdade, para além da aparência.

Olhando para o ano em que foi escrita esta obra (1902) e conhecendo as realizações artísticas que se seguiram, é suposto acreditar que o artista austríaco construiu uma espécie de preâmbulo a todas as décadas seguintes. Consegue-se reconhecer as múltiplas interpretações de que um objecto pode conter na Fonte de Marcel Duchamp (1917); da fragmentação do sujeito poético em vários poemas de Fernando Pessoa; do ponto de vista em simultâneo de objectos e formas no Violino e cântaro de George Braque (1910) ou da distorção da realidade no expressionismo alemão de início de século XX. Nada leva a crer que algum dos autores mencionados tenha alguma vez lido Hofmannsthal, no entanto, existem razões claras e de índole iniciática, que tornam o austríaco um dos pais da era modernista.

Por: Bruno Rosa Gonçalves

 

 

20
Jun20

Denis Diderot - Jacques o Fatalista e o Seu Amo

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Será que “estava escrito lá em cima que” Denis Diderot haveria de conseguir esta obra magnífica? Os crentes na doutrina determinista dirão que sim, tal como o fatalista, Jacques.

O ambiente histórico-social por detrás da obra foram os movimentos iluministas franceses, que tiveram Diderot como um grande impulsionador. Esta corrente filosófica conduziu a França à Revolução em 1789, na qual, os valores emergentes do iluminismo permitiram a coesão de toda a nação gaulesa. Este “catecismo” iluminista é implicitamente explorado na obra, o seu autor, permite-se ao gozo, por assim dizer, para referir os anseios e dúvidas vigentes na época. Aproveita a sua posição omnisciente para criticar, divagar e comentar as atuações das personagens, bem como, os seus vícios mais sombrios, além disso, dialoga quase de forma informal com o leitor “Mas, por Deus, leitor, dizei-me vós, para onde iam eles?... Mas, por Deus, leitor, responderei eu, haverá alguém que saiba para onde vai? E vós, para onde ides?”. Além de querer introduzir o leitor na história e de lhe atribuir uma nova importância, critica-o, pois interpreta qual seria o seu julgamento na acção, faz assim do leitor uma espécie de elemento colectivo, como se falasse a toda a sociedade francesa de século XVIII “Entrais em fúria ao ouvir o nome da senhora de La Pommeraye e exclamais: «Ah, que mulher horrível! Ah, que hipócrita! Ah, pérfida!» Nada de exclamações, nada de cóleras, nada de imparcialidades: raciocinemos. Todos os dias se praticam acções mais negras, sem qualquer génio. Podeis odiar ou podeis temer a senhora de La Pommeraye; mas não deveis desprezá-la”, “Ah, leitor, vós sois de uma curiosidade verdadeiramente incómoda!”.

Este diálogo directo que é estabelecido com o leitor e uma certa distorção da linha narrativa, na qual, as histórias são sempre interrompidas por novas histórias, torna a obra de difícil arrumação quanto ao género literário, alguns consideram-na como um anti-romance. É uma posição que o próprio autor se regozija, uma vez que, existe ao longo da narração uma espécie de paródia em relação ao romance convencional, leia-se por exemplo, quando o narrador interrompe uma personagem no momento exacto em que esta iria revelar uma carta importante para o desvendar de uma das histórias: “Leitor, suspendeis aqui a vossa leitura; que se passa? Ah, julgo compreender-vos, gostaríeis de ver essa carta? A senhora Riccoboni não deixaria de vo-la mostrar... Suplico-vos pois que vos digneis dispensar essas duas cartas e continuar a vossa leitura”. Jacques o Fatalista e o seu amo é um exercício de dialéctica, uma arte de contar histórias, ou, como diz o professor Eduardo Prado Coelho, “a paixão de falar”. Espinoza, Rousseau, Laurence Sterne, entre outros, serviram de inspiração e de influência, assumido por Diderot na narrativa, com breves passagens destacando o caso. Existe também uma aproximação às narrativas greco-latinas, reconhecido tanto no espírito odisseico de Jacques e do seu amo – estão em viagem desde o início do livro até ao fim; como, nas várias histórias dos amores – todas as personagens que surgem ao longo da viagem tem histórias de amores para contar.

O repto do protagonista é sempre o “estava escrito lá em cima”, assim, tudo o que fizesse já estaria “escrito” e teria sempre que acontecer, algo que, o próprio narrador por vezes contradiz, falando para o leitor. Jacques e o seu amo, tinham o seu destino traçado, caminhavam para ele conversando apenas, no fundo, é uma das hipóteses da existência humana. Com esta leitura aprendemos a respeitar o tempo: o tempo de ouvir e o tempo de contar, assumem mesmo maior importância do que o tempo da nossa existência sob jugo da máxima fatalista “estava escrito lá em cima”.

Por: Bruno Rosa Gonçalves

11
Jun20

Breve Estudo sobre Immanuel Kant

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No século XVIII desenvolve-se o movimento iluminista que, seguindo os princípios do racionalismo, visa a aprofundar os conhecimentos da razão. Immanuel Kant aparece como um dos principais filósofos desse período e o seu pensamento é motivado pelo quadro específico da sua época, onde existia a necessidade de encontrar clareza para os problemas da sociedade e do homem. O filósofo alemão exige que se aplique um julgamento da razão, tendo como finalidade ultrapassar o dogmatismo racionalista, ou seja, a autossuficiência da razão sobre a experiência, o positivismo empirista, numa prática de minimizar o pensamento à interpretação sensorial, e do irracionalismo, entendido como a nega da razão, numa ilusão levada através da fé mística e subjectiva.

Na sua obra mais proeminente “Crítica da Razão Pura”, Kant assume a posição idealista, divergindo com o racionalismo e com o empirismo, coloca o homem no centro do pensamento e não a substância. Esta posição faz com que a razão ultrapasse os limites da experiência e se submeta aos seus próprios limites, na procura do incondicionado – estado que permite aumentar o conhecimento. A “razão pura” significa assim a essência da razão a partir do estudo de si mesma. Para Kant a filosofia devia responder a três questões essenciais para que a razão encontre os conhecimentos fundamentais de motivação humana: “que posso conhecer?”, “que devo fazer?” e “que me é permitido esperar?”. A primeira questão pertence ao juízo metafísico, que identifica os limites que permitem espaço para a desenvoltura do conhecimento científico. A segunda questão transporta a filosofia para a esfera moral, define qual a acção a tomar e quais são as condições que envolvem o conceito de liberdade. A última questão possibilita entender a religião, alude à definição do homem e ao seu destino. Toda a concepção idealista permite defender as ideias inatas do homem, aquelas que não se colocam em causa, nascidas da intuição. Kant caracteriza esta ideias como conhecimentos a priori, aqueles que tornam possível a experiência, sendo anteriores à mesma. A filosofia do alemão estabelece assim três ideias da razão: Deus, a alma e o mundo, e apesar de não acrescentarem conhecimento objectivo fazem com que o ser humano nunca encontre o horizonte, mas que se motive na sua procura e que avance no conhecimento da verdade. Esta concepção idealista contribui para o homem evoluir no que respeita à sua posição no mundo, “abraçando” uma posição humanista perante a sociedade, além disso, o repto a partir da perspectiva do horizonte não alcançado, contribui para a posição do homem na pesquisa continuada de algo, num confronto constante com os limites da razão.

Immanuel Kant definiu a Aufklarung como sendo “a saída do homem da sua menoridade”, e acusou o próprio homem de ser o responsável dessa inércia. A menoridade baseia-se, portanto, na incapacidade de se servir do próprio entendimento, preferindo o dos outros sem o questionar. A Aufklarung traduz-se como “esclarecimento” e procura a independência da razão dentro dos limites da natureza. O esclarecimento da razão inspirou a época iluminista na procura de superar os preconceitos paralisantes da razão, opondo-se à tradição que suportava o passado e condicionava a liberdade da percepção, criticando a autoridade externa à razão e ainda todo o tipo de princípio supersticioso e idólatra. Nesta perspectiva a razão esclarecida assume-se como tolerante, rejeitando os métodos pouco racionais de interpretação que até aí, ou seja, até ao iluminismo, descreviam a vida e a realidade. Sob o ponto de vista da fé e da religião a razão assume-se como secular, o que vem permitir uma visão “fisiocentrista”, tendo a natureza como referência e elemento central em oposição ao “teocentrismo” que colocava Deus como o princípio máximo da origem do mundo. Tal como Hegel escreveu “o princípio do iluminismo é a soberania da razão, a exclusão de toda a autoridade”, tendo por base três temas principais: o domínio da natureza física e do conhecimento, a religião e o seu sentido de fé e a organização social e histórica.

Por: Bruno Rosa Gonçalves