Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Elogio Literário

Procura o elogio gratuito a várias expressões de Arte. Numa época tão dada a críticas, aqui só se pretende elogiar...

Procura o elogio gratuito a várias expressões de Arte. Numa época tão dada a críticas, aqui só se pretende elogiar...

Elogio Literário

27
Jun20

Hugo Von Hofmannsthal - A Carta De Lorde Chandos

hugovonhofmannthal.jpg

Hugo Von Hofmannsthal foi um intelectual austríaco que, além de compor poemas e outros escritos literários, também escreveu libretos para óperas do conhecido músico Richard Strauss. Conviveu de perto com a vida boémia e intelectual da sua cidade (Viena) tendo conhecido nomes como Hermann Bahr, Stefan George, Rainer Maria Rilke, Stefan Zweig e Karl Krauss. É associado à corrente artística fin de siècle, cujos autores influenciavam com as suas ideias a chegada de um novo século.

Por volta de 1901, o autor austríaco sofre uma crise intelectual que o faz desligar-se das letras e da carreira académica e é neste ambiente que nasce a sua obra A Carta a Lord Chandos. Apesar de exprimir o estado de alma do seu autor, a carta é ficcional, escrita por um tal de Philipp, Lord Chandos, nobre isabelino ao conhecido pensador inglês Francis Bacon. Esta epístola antecipa a nova corrente artística que o século XX acrescentou: modernismo.

A missiva apresenta um tom confessional onde Lord Chandos responde a Francis Bacon explicando as razões que o levaram a afastar-se da literatura durante os últimos anos. Tal como a sua personagem, Hofmannsthal sentia-se ausente e perdido no seu tempo, não reconhecendo na literatura qualquer forma de expressão que contivesse as palavras certas “perdi por completo a faculdade de pensar ou de falar consequentemente sobre o que quer que seja”. Os seus desejos e objectivos “dançavam todos à sua frente como mosquitos melancólicos num muro sombrio onde o sol forte dos dias felizes já não bate”. Para Lord Chandos, os princípios da harmonia estóica e epicurista apesar “do jogo maravilhoso das suas relações” já não bastavam para um profundo encontro consigo próprio. “Tudo se me descompunha em fragmentos que, por sua vez se fragmentavam, e nada se deixava possuir por um conceito” A fragmentação do sujeito, uma das principais características que irá caracterizar a cultura mundial no novo século que se iniciava. Através destas múltiplas interpretações de si próprio o nobre inglês chegaria ao seu desejo mais profundo “Nosce te ipsum” [Conhece-te a ti próprio] – seguindo este adágio de Tales de Mileto, interpretaria o mundo material e espiritual como uma unidade em si mesma.

As palavras tornaram-se “falsas” e “inconsistentes”, já não serviam para explicar o sentido do mundo, a linguagem percorria sentidos unívocos e tornava-se vazia. O espírito de Chandos “forçava-se a ver com uma proximidade inquietante” e com isso não conseguir descrever as várias leituras que encontrava para o mesmo objecto, pois este poderia adquirir múltiplas percepções.

Hofmannsthal, mergulhado na sua personagem, usa a linguagem para descrever o seu mutismo. Nesse exercício incorrigível de olhar para dentro, as palavras ainda não existiam e, as que existiam também elas possuíam outros significados. A partir desse momento muitos outros autores se lançaram nesse desafio, de olhar “à lupa” o homem e procurar desvendar um pouco mais de verdade, para além da aparência.

Olhando para o ano em que foi escrita esta obra (1902) e conhecendo as realizações artísticas que se seguiram, é suposto acreditar que o artista austríaco construiu uma espécie de preâmbulo a todas as décadas seguintes. Consegue-se reconhecer as múltiplas interpretações de que um objecto pode conter na Fonte de Marcel Duchamp (1917); da fragmentação do sujeito poético em vários poemas de Fernando Pessoa; do ponto de vista em simultâneo de objectos e formas no Violino e cântaro de George Braque (1910) ou da distorção da realidade no expressionismo alemão de início de século XX. Nada leva a crer que algum dos autores mencionados tenha alguma vez lido Hofmannsthal, no entanto, existem razões claras e de índole iniciática, que tornam o austríaco um dos pais da era modernista.

Por: Bruno Rosa Gonçalves

 

 

20
Jun20

Denis Diderot - Jacques o Fatalista e o Seu Amo

denisdiderot.jpg

Será que “estava escrito lá em cima que” Denis Diderot haveria de conseguir esta obra magnífica? Os crentes na doutrina determinista dirão que sim, tal como o fatalista, Jacques.

O ambiente histórico-social por detrás da obra foram os movimentos iluministas franceses, que tiveram Diderot como um grande impulsionador. Esta corrente filosófica conduziu a França à Revolução em 1789, na qual, os valores emergentes do iluminismo permitiram a coesão de toda a nação gaulesa. Este “catecismo” iluminista é implicitamente explorado na obra, o seu autor, permite-se ao gozo, por assim dizer, para referir os anseios e dúvidas vigentes na época. Aproveita a sua posição omnisciente para criticar, divagar e comentar as atuações das personagens, bem como, os seus vícios mais sombrios, além disso, dialoga quase de forma informal com o leitor “Mas, por Deus, leitor, dizei-me vós, para onde iam eles?... Mas, por Deus, leitor, responderei eu, haverá alguém que saiba para onde vai? E vós, para onde ides?”. Além de querer introduzir o leitor na história e de lhe atribuir uma nova importância, critica-o, pois interpreta qual seria o seu julgamento na acção, faz assim do leitor uma espécie de elemento colectivo, como se falasse a toda a sociedade francesa de século XVIII “Entrais em fúria ao ouvir o nome da senhora de La Pommeraye e exclamais: «Ah, que mulher horrível! Ah, que hipócrita! Ah, pérfida!» Nada de exclamações, nada de cóleras, nada de imparcialidades: raciocinemos. Todos os dias se praticam acções mais negras, sem qualquer génio. Podeis odiar ou podeis temer a senhora de La Pommeraye; mas não deveis desprezá-la”, “Ah, leitor, vós sois de uma curiosidade verdadeiramente incómoda!”.

Este diálogo directo que é estabelecido com o leitor e uma certa distorção da linha narrativa, na qual, as histórias são sempre interrompidas por novas histórias, torna a obra de difícil arrumação quanto ao género literário, alguns consideram-na como um anti-romance. É uma posição que o próprio autor se regozija, uma vez que, existe ao longo da narração uma espécie de paródia em relação ao romance convencional, leia-se por exemplo, quando o narrador interrompe uma personagem no momento exacto em que esta iria revelar uma carta importante para o desvendar de uma das histórias: “Leitor, suspendeis aqui a vossa leitura; que se passa? Ah, julgo compreender-vos, gostaríeis de ver essa carta? A senhora Riccoboni não deixaria de vo-la mostrar... Suplico-vos pois que vos digneis dispensar essas duas cartas e continuar a vossa leitura”. Jacques o Fatalista e o seu amo é um exercício de dialéctica, uma arte de contar histórias, ou, como diz o professor Eduardo Prado Coelho, “a paixão de falar”. Espinoza, Rousseau, Laurence Sterne, entre outros, serviram de inspiração e de influência, assumido por Diderot na narrativa, com breves passagens destacando o caso. Existe também uma aproximação às narrativas greco-latinas, reconhecido tanto no espírito odisseico de Jacques e do seu amo – estão em viagem desde o início do livro até ao fim; como, nas várias histórias dos amores – todas as personagens que surgem ao longo da viagem tem histórias de amores para contar.

O repto do protagonista é sempre o “estava escrito lá em cima”, assim, tudo o que fizesse já estaria “escrito” e teria sempre que acontecer, algo que, o próprio narrador por vezes contradiz, falando para o leitor. Jacques e o seu amo, tinham o seu destino traçado, caminhavam para ele conversando apenas, no fundo, é uma das hipóteses da existência humana. Com esta leitura aprendemos a respeitar o tempo: o tempo de ouvir e o tempo de contar, assumem mesmo maior importância do que o tempo da nossa existência sob jugo da máxima fatalista “estava escrito lá em cima”.

Por: Bruno Rosa Gonçalves

11
Jun20

Breve Estudo sobre Immanuel Kant

imanuelkant.jpg

No século XVIII desenvolve-se o movimento iluminista que, seguindo os princípios do racionalismo, visa a aprofundar os conhecimentos da razão. Immanuel Kant aparece como um dos principais filósofos desse período e o seu pensamento é motivado pelo quadro específico da sua época, onde existia a necessidade de encontrar clareza para os problemas da sociedade e do homem. O filósofo alemão exige que se aplique um julgamento da razão, tendo como finalidade ultrapassar o dogmatismo racionalista, ou seja, a autossuficiência da razão sobre a experiência, o positivismo empirista, numa prática de minimizar o pensamento à interpretação sensorial, e do irracionalismo, entendido como a nega da razão, numa ilusão levada através da fé mística e subjectiva.

Na sua obra mais proeminente “Crítica da Razão Pura”, Kant assume a posição idealista, divergindo com o racionalismo e com o empirismo, coloca o homem no centro do pensamento e não a substância. Esta posição faz com que a razão ultrapasse os limites da experiência e se submeta aos seus próprios limites, na procura do incondicionado – estado que permite aumentar o conhecimento. A “razão pura” significa assim a essência da razão a partir do estudo de si mesma. Para Kant a filosofia devia responder a três questões essenciais para que a razão encontre os conhecimentos fundamentais de motivação humana: “que posso conhecer?”, “que devo fazer?” e “que me é permitido esperar?”. A primeira questão pertence ao juízo metafísico, que identifica os limites que permitem espaço para a desenvoltura do conhecimento científico. A segunda questão transporta a filosofia para a esfera moral, define qual a acção a tomar e quais são as condições que envolvem o conceito de liberdade. A última questão possibilita entender a religião, alude à definição do homem e ao seu destino. Toda a concepção idealista permite defender as ideias inatas do homem, aquelas que não se colocam em causa, nascidas da intuição. Kant caracteriza esta ideias como conhecimentos a priori, aqueles que tornam possível a experiência, sendo anteriores à mesma. A filosofia do alemão estabelece assim três ideias da razão: Deus, a alma e o mundo, e apesar de não acrescentarem conhecimento objectivo fazem com que o ser humano nunca encontre o horizonte, mas que se motive na sua procura e que avance no conhecimento da verdade. Esta concepção idealista contribui para o homem evoluir no que respeita à sua posição no mundo, “abraçando” uma posição humanista perante a sociedade, além disso, o repto a partir da perspectiva do horizonte não alcançado, contribui para a posição do homem na pesquisa continuada de algo, num confronto constante com os limites da razão.

Immanuel Kant definiu a Aufklarung como sendo “a saída do homem da sua menoridade”, e acusou o próprio homem de ser o responsável dessa inércia. A menoridade baseia-se, portanto, na incapacidade de se servir do próprio entendimento, preferindo o dos outros sem o questionar. A Aufklarung traduz-se como “esclarecimento” e procura a independência da razão dentro dos limites da natureza. O esclarecimento da razão inspirou a época iluminista na procura de superar os preconceitos paralisantes da razão, opondo-se à tradição que suportava o passado e condicionava a liberdade da percepção, criticando a autoridade externa à razão e ainda todo o tipo de princípio supersticioso e idólatra. Nesta perspectiva a razão esclarecida assume-se como tolerante, rejeitando os métodos pouco racionais de interpretação que até aí, ou seja, até ao iluminismo, descreviam a vida e a realidade. Sob o ponto de vista da fé e da religião a razão assume-se como secular, o que vem permitir uma visão “fisiocentrista”, tendo a natureza como referência e elemento central em oposição ao “teocentrismo” que colocava Deus como o princípio máximo da origem do mundo. Tal como Hegel escreveu “o princípio do iluminismo é a soberania da razão, a exclusão de toda a autoridade”, tendo por base três temas principais: o domínio da natureza física e do conhecimento, a religião e o seu sentido de fé e a organização social e histórica.

Por: Bruno Rosa Gonçalves

 

05
Jun20

Sófocles - Rei Édipo

sofocles.jpg

Pode um homem fugir ao seu destino? A fatídica história de Édipo é marcante para o pensamento ocidental, na medida em que levanta questões sobre individualidade e destino.

A tragédia grega teve uma origem religiosa, com isso, transportava os seus personagens para situações de salvação e/ou castigo divino. Na data da peça de Sófocles, séc. V a.c., prevalecia a religião politeísta – a crença de que vários deuses tinham controle na actuação humana. A tragédia, enquanto género literário, surge após a epopeia, foi uma forma de evolução, o que a epopeia contava, a tragédia mostrava.

Sófocles é o responsável no teatro grego de ter introduzido o 3º actor nas peças e também de ter criado a cenografia. As suas obras debruçavam-se sobre a acção e as personagens. Estas passaram a assumir o interesse nuclear na peça, além de darem nome às obras, tal como o Rei Édipo.

Esta tragédia reúne inúmeras características que o teatro grego continha e inicia-se com a ditosa mensagem dos deuses: o filho que o Rei Laio tivesse seria o causador da sua morte e casaria com a sua esposa, assim sendo, como solução, o Rei de Tebas manda matar o filho que nasceu de Jocasta, sua esposa. No entanto, Édipo sobrevive e acabará por ser adoptado pelo Rei de Corinto. Logo aqui embatemos numa das novidades que Sófocles acrescentou à tragédia, a peripécia – um conjunto de reviravoltas que ocorre na acção. O famigerado Édipo é o herói da peça e o centro do interesse, pensa, age e procura desesperadamente fugir ao seu destino – ditado por um oráculo obscuro e impreciso – no entanto, o que faz é aproximar-se dele. São dadas características psicológicas algo que, até à data, não tinha sido feito nas tragédias gregas, no fundo, as personagens humanizam-se e os espectadores são testemunhas das suas dores e ambições. Somos tentados a ter compaixão do protagonista - revela ser dotado de coragem e inteligência, verificado quando derrota a Esfinge que atormentava a região de Tebas, resolvendo um enigma e tornando-se assim Rei, casando com Jocasta.

Édipo apenas sabia o que estava destinado, não entendia as consequências do seu esforço. É uma simples “marioneta” na determinação dos deuses - que têm o futuro dos indivíduos nas suas mãos e jogam com ele a seu belo prazer. O homem nas tragédias gregas era representado como instável e efémero, ao contrário dos deuses que eram perenes e serenos. Assim, Édipo procurava o seu próprio caminho, a sua individualidade, no entanto, o que a peça revela é a inevitabilidade de fugir à vontade divina. O destino como prova da ignorância humana. Apesar da nobreza e dignidade do Rei Édipo, a ameaça constante do horror alerta para que o desastre tenha de acontecer (golpe de teatro) e acontece quando existe o reconhecimento do seu erro.

Hoje a leitura que temos de justiça diz-nos que Édipo não seria o responsável por tudo o que lhe aconteceu, os acontecimentos terríveis na peça atingem o protagonista como uma doença que não se pode controlar. Na antiga visão grega o mundo era harmonioso, tendo em conta a cosmogonia existente no universo, com isso, as peripécias narradas na obra colocariam em causa essa mesma harmonia, poderiam então os deuses representar a pureza harmónica do universo com actos tão cruéis? As resposta a esta questão arrastou o pensamento para os meandros da filosofia.

É importante reunir o “xadrez” familiar de Édipo e conhecer a maldição dos Labdácidas para entender que o seu destino já estava escrito pelos seus antepassados. Nos dias actuais é fácil o ser humano achar-se dono de si próprio: condutor exemplar do seu trajecto, vencedor iminente da sorte, senhor dos novos mundos, crente na ciência, única verdade imaculada. Seremos donos de onde nascemos?

A sabedoria dos gregos ajudam a entender as arbitrariedades do destino e aceitá-las não como derrota mas como interpretação e conhecimento da nossa realidade. Acolher este ideal pode ser um apelo a desfrutar do prazer que cada vida pode conter no seu âmago, aceitar os refluxos da vida sem nos perdermos em lutas vãs. A cegueira nesta peça é uma certa metáfora a todas as vidas cegas que não querem ver a realidade, tal como ela nos é demonstrada.

Por: Bruno Rosa Gonçalves

 

29
Mai20

Petrónio - Satyricon

petronio.jpg

Consta-se que Satyricon foi o primeiro romance da história. Muitos teóricos literários, definem-no como um proto-romance – um género de embrião daquilo que viria a ser o género de romance tal como o conhecemos. Romance ou proto-romance, o certo é que a obra, escrita algures no século I, provavelmente na era de Nero, tornou-se um marco na literatura ocidental por ter desenvolvido a prosa elevando-a a um novo estilo estético-discursivo. Podemos, com isso admitir que Petrónio viveu à frente do seu tempo, uma vez que inaugurou um género estilístico que é comum na contemporaneidade.

Satyricon significa “sátiros” ou “livro dos sátiros”, o que compromete a narrativa numa forte envolvente social, expondo a vida romana em plena prosperidade imperial. Os excessos do império onde abundam: a exuberância dos banquetes, a sedenta vontade de riqueza material, a consumação dos prazeres priápicos, a fé num reconhecimento póstumo, enfim, uma credibilidade de que o metal comprava a felicidade.

No momento da obra, ainda não existia a crença cristã - a visão monoteísta, o pecado mortal, a ressurreição da alma, ascende apenas a vivência pagã – presença contínua de vários deuses (tradição politeísta) que castigam e defendem; ligação ao mito como explicação dos fenómenos naturais, cada uma das personagens vive de acordo com predisposições lascivas, o que torna possível uma abertura aos prazeres. Do ponto de vista filosófico, verifica-se uma tendência epicurista na abordagem, tendo como base a satisfação do corpo, claramente perceptível no Festim de Trimalquião, onde somos levados a entender os luxos exibidos por um liberto “Ai de nós miseráveis, que todo o homúnculo nada é! / Assim ficaremos todos mal, mal o Orco nos arrastar. / Por isso, toca a viver, enquanto boa vida houver”.

Encólpio – narrador; Ascilto, seu amante e Gíton, um servo adolescente são as três personagens principais. Vivem um triângulo amoroso - num claro sinal dos tempos pagãos – amam, traem, cobiçam, desconfiam, sofrem, revelam características elementares de qualquer ser humano. O seu percurso não tem um fim, não existe um objectivo claro e definido, apenas vivem e simbolizam isso mesmo. Trimalquião (personagem central no fragmento Festim de Trimalquião) é o exemplo de quem, por força de várias circunstâncias, escalou no estrato social romano, de escravo passou a senhor. Representa toda a grandeza e arrogância que esse trajecto pode apresentar, não olha a meios para conseguir o prazer carnal. Exibe banquetes com as iguarias mais exuberantes que poderiam ser vistas e transporta no corpo os bens materiais mais invejados, de um modo geral, acha-se capaz de comprar reconhecimento.

Nas acusações feitas ao longo da obra detectamos uma sociedade putrefacta quanto aos seus valores e princípios, como deixa bem claro no início da obra “eu penso que os jovens, ao frequentarem a escola, se tornam parvos de todo, porque não discutem nem vêem nenhum dos problemas da realidade quotidiana...”, “...uma vez corrompidas as boas regras da eloquência, logo ela ficou queda e muda”. A poesia na personagem de Eumolpo personifica a arte retórica que, simbolicamente numa das cenas, é apedrejada e detestada pela maioria. Poeta esse que, num naufrágio continua a compor versos, mesmo perante a iminência da morte, numa imagem daquilo que significa a transcendência da arte “Deixem-me acabar esta frase; está encravado o poema na fase final”.

A visão de Petrónio vai para além da ridicularização social e da acusação de vícios, alcança também um tipo de consciência que permite o benefício da dúvida perante o outro, um género de pensamento que nos coloca no lugar do outro. Evidência representada por Encólpio quando observa um cadáver ondulando no mar após um naufrágio “A este quem sabe, nalgum lugar da terra, o está aguardando a mulher, posta em sossego, quem sabe se um filho, desconhecedor da tempestade, ou então um pai; em todo o caso, alguma pessoa deixou, a quem, ao partir, deu um beijo”. Na mesma cena, após reconhecer o corpo de um seu inimigo, o mesmo Encólpio coloca em causa a tenacidade do ser humano, num discurso que Shakespeare, séculos mais tarde, soube muito bem aproveitar na peça Hamlet: “Onde está agora a tua fúria, onde está a tua força? Ora aí te encontras à mercê dos peixes e dos animais, tu que ainda à pouco te gabavas da potência do teu império, e de um barco tão grande não possuis, como náufrago, uma tábua sequer”.

Como Delfim F. Leão indica Satyricon “faz de Petrónio, quase vinte séculos volvidos sobre a sua morte, um dos autores mais interessantes e modernos que a Antiguidade nos legou”.

Por: Bruno Rosa Gonçalves

 

 

24
Mai20

Breve Estudo sobre René Descartes

20200526_145409.jpg

O racionalismo é uma corrente filosófica que nasceu no século XVII que permitiu à razão superar a experiência sensível, conferindo-lhe autonomia, garantindo-se como um princípio fundamental do saber. Para os racionalistas, os nossos conhecimentos verdadeiros derivam da razão. René Descartes distingue-se como o primeiro filósofo a aplicar os conceitos racionalistas, defendendo através do seu “método”, que a razão é única, conseguindo distinguir o que é verdadeiro daquilo que é falso. Para Descartes a intuição – percepções imediatas de conceitos simples, e a dedução – sucessão de intuições das naturezas simples e das conexões que estas geram, são os dois modelos que permitem alcançar o conhecimento verdadeiro. O “método” de Descartes deu então início ao pensamento moderno através da constante dúvida sobre a realidade. No pensamento do filósofo francês a busca da verdade absolutamente certa deve, em primeiro lugar, suprimir todas as dúvidas, ou seja, duvidando, o homem consegue encontrar caminho para as certezas, ao eliminar as incertezas geradas pela própria dúvida. A dúvida metódica pode ser interpretada através das falácias dos sentidos - provocadas pela indução ao erro que os sentidos conduzem, da indistinção entre a vigília e o sonho – acrescentando a dúvida se aquilo que vemos é real ou não, o que depende sempre da interpretação pessoal do indivíduo e da dúvida através de um “espírito maligno” - da eventualidade de que toda a interpretação da realidade seja obra de um grande equívoco. A dúvida metódica serve assim para desconstruir a realidade tal como é conhecida, e permite ao filósofo chegar à primeira grande verdade absoluta: de que o homem pensa e, por pensar existe, porque pensou. A sua célebre máxima “penso, logo existo” atribui a primeira certeza totalmente clara e distinta ao conhecimento, fazendo com que todas as certezas que forem tão percetíveis como esta se assumam também elas verdadeiras. Portanto, o indivíduo através do pensamento pensa sempre ideias e estas assumem-se como adventícias, as que parecem aparecer da experiência externa (“oceano”, ”mulher” ou ”cor”), como ideias factícias, que se constroem através de outras ideias já existentes (a ideia de um cão com três cabeças) ou como ideias inatas, fundamentais ao racionalismo, que sugerem todas as ideias que o conhecimento encerra por si mesmo (“pensamento” ou “existência”). Partindo do raciocínio baseado nas ideias, Descartes identifica a existência de Deus, associando-o à ideia de infinito, concluindo esta ideia como inata, pois o homem, como ser pensante, imediatamente entende a finitude. Em suma, a realidade para o filósofo francês é estruturada a partir de Deus, como substância infinita, no “Eu” (que pensa), como substância pensante e nos “corpos” como substância extensa, sendo estas substâncias caracterizadas como algo que tem existência e que não necessita de mais nada para existir. O racionalismo trouxe assim um fundamental contributo para a evolução dos trabalhos científicos.

Por: Bruno Rosa Gonçalves

15
Mai20

Jonathan Swift - Singela Proposta e Outros Textos Satíricos

jonathanswift.jpg

Este pau singelo, que hoje diviso ingloriamente tombado naquele recanto esquecido, conheci-o em tempos num estado vicejante, em plena floresta; estava repleto de seiva, repleto de folhas e repleto de galhos; agora, todavia, em vão tenta a arte afanosa do homem rivalizar com a natureza” - assim começa a sátira Meditação Acerca de Uma Vassoura construída com o objectivo de ser lido a uma condessa londrina. Swift depois de realizar esta composição inseriu-a no interior de um livro de um certo Robert Boyle (autor célebre por obras morais da época) e, numa das leituras dessa obra que fazia regularmente à condessa, leu-a. Uma vassoura comparada ao homem “o que é o homem, dizei-me, senão uma criatura às avessas, com as faculdades animais perpetuamente às cavalitas do irracional”. Foi este “virar do avesso” que permitiu a Swift contornar com graça o desconforto que sentia em ser obrigado a ler autores que, no seu entendimento, eram menores. Olhar para o mundo real e desconstruí-lo, eis uma abordagem que permite o romper da trapaça, da ironia, da comédia, da crítica e do ridículo e que no fim nos permite olhar para nós próprios e rirmos dos nossos defeitos.

Nascido em Dublin, na segunda metade do século XVII, Jonathan Swift passou por uma infância atribulada e difícil, sendo por intermédio de William Temple (aristocrata inglês) que teve acesso, tanto a uma conveniente educação, como a uma proximidade de círculos literários. Este contacto inspirou-o a observar os preâmbulos literários de uma forma marcadamente mordaz.

A Batalha dos Livros foi criado com intuito de defesa a um ensaio de William Temple sobre o crédito que os livros antigos e modernos tiveram para a humanidade. Nesse texto, os autores modernos (finais de século XVII que atacaram o ensaio de Temple) são acusados de possuir “quando se trata de tecer especulações, uma maravilhosa agilidade, e não concebem cumes que a sua ligeireza não possa conquistar” e, vendo-se ofuscados pela sombra do cume do Monte Parnasso – local onde habitam os antigos e aspiram chegar os modernos – causada por tão elevada altitude, desafiam os seus habitantes para uma acérrima luta. A posição dos antigos nas estantes, apesar da sua “prudência, antiguidade e, acima de tudo, os seus grandes méritos, por comparação com os modernos” é vilmente contestada pelos jovens aspirantes que, através da sua leviandade, procuram esse espaço de influência. Nesta dura batalha livresca os antigos possuem nas suas fileiras de combate nomes das letras como Homero, Vergílio, Píndaro ou Esopo, por sua vez, os modernos são representados por algumas figuras da época que o autor irlandês vulgariza, com mestria, neste petulante confronto. A dada altura do duelo os modernos tem necessidade de recorrer aos seus deuses, é quando visitam a Crítica (filha da Ignorância e do Orgulho, irmã da Opinião e mãe do Ruído, Insolência, Estupidez, Vaidade, Dogmatismo, Pedantismo e Rudeza) que os protege “Sou eu que confiro a sabedoria aos petizes e aos idiotas; graças a mim os filhos tornam-se mais sábios do que os pais; os elegantes tornam-se políticos, e os colegiais, árbitros em matéria filosófica; graças a mim, os sofistas debatem e extraem conclusões em domínios impenetráveis do saber; e os gracejadores dos botequins, instigados por mim, são capazes de corrigir o estilo de um autor e de pôr a nu os seus erros mais insignificantes, em compreenderem uma só sílaba da sua escrita ou da sua linguagem; graças a mim, os jovens estúpidos dissipam o seu bom senso, tal como fazem ao seu património, antes mesmo de lhes chegar às mãos”. A sagacidade do autor irlandês não tem limites e coloca à superfície todas as percepções dos modernos do seu tempo, em relação à cultura erudita – antiguidade clássica. A fábula da aranha e da abelha vinca os dois extremos da disputa no sentido em que a abelha (antigos) – transporta “luz” e doçura a toda a humanidade, enquanto que a aranha (modernos) – é o símbolo da técnica, que se debruça unicamente com a sua individualidade.

Apesar de cónego, Jonathan Swift não deixou de usar a religião como elemento satírico, entendido na Argumentação Contra a Abolição do Cristianismo na Inglaterra e Dissertação Relativa à Estimulação Mecânica do Espírito, expondo os seus vícios e fanatismo. “Quem, vendo um mortal insignificante a discursar monocordicamente, a divagar, a debitar disparates diante de uma multidão, poderá achar plausível que tanto o Céu como o Inferno se dêem ao trabalho de influenciar ou inspeccionar a tarefa a que ele se entrega?”

A Singela Proposta serviu para o autor aumentar a lista de inimigos públicos com os seus trabalhos literários e, esta sátira é altamente corrosiva na acusação que faz à pobreza material e de espírito com que Dublin se deparava na primeira metade do século XVIII.

“Todos quantos percorrem esta grandiosa cidade de Dublin... se sentem invadidos pela melancolia ao verem as ruas, as estradas e as portas dos casebres apinhadas de mendigos do sexo feminino, pobres mulheres seguidas por três, quatro ou seis crianças, todas vestidas de andrajos e a importunarem quem passa com a súplica de uma esmola” - como solução final, para toda esta angústia citadina é proposto então que as crianças dos mendigos sirvam de refeição aos restantes habitantes. A proposta vai ao pormenor de que apenas a partir do primeiro ano é viável o comércio da carne juvenil, visto que até esse período não existe despesa para os pais. Com isto, seriam ultrapassados vários problemas sociais: fome, mendicidade, pobreza e marginalidade, estabelecendo assim a harmonia e prosperidade entre os cidadãos.

Esta distopia prende o leitor com o absurdo do pensamento humano e das suas prioridades em relação aos problemas com que se depara. Uma tão inconcebível proposta, sob o ponto de vista humano, pretende olhar para a miserabilidade social e expor as suas maiores fraquezas e necessidades. A Singela Proposta é nos servida fria e tímida, alerta-nos para as preocupações verdadeiras do ser humano, das suas aflições e ambições urgentes, somos tentados a intervir, auxiliar, e, quando já estamos ansiosos por uma solução e fartos dos enfados quotidianos, ela surge. O que esta sátira estabelece é uma incrível proximidade entre a compreensão e a maldade.

É um exercício extraordinário ler Jonathan Swift no século XXI, os desvios dos modernos perante os ensinamentos dos antigos, os fanatismos constantes e as posições absurdas a que a contemporaneidade por vezes chega, tornam estas sátiras tão próximas da realidade.

Por: Bruno Rosa Gonçalves

08
Mai20

Eurípedes - Medeia

euripedes.jpg

À semelhança de outras obras de Eurípedes (As Bacantes, Alceste, Orestes), Medeia enquadra-se no subgénero trágico, género dramático que consagrou o seu autor como ousado para a época de reprodução (século V a.C.). As obras de Eurípedes tinham a característica de escandalizar o público através da violência que as suas cenas apresentavam, isso refletiu-se na incompreensão que o autor se sujeitou na sua época devido a esse mal-estar que provocava nos espetadores. Ora, apesar de no século V a.C. o público não estar realmente preparado para assistir a peças do género, fazendo com que Eurípedes não fosse tão apreciado como outros autores seus contemporâneos, tais como, Sófocles ou Ésquilo, a história fez com que se concedesse importância ao tragediógrafo, sendo o mais lido numa fase posterior à sua existência. 

As tragédias gregas tinham em comum o facto de irem buscar à mitologia a inspiração para as aventuras dos seus heróis. Medeia é uma personagem da mitologia grega, ligada à expedição dos Argonautas que reconquistaram o velo de ouro na Cólquida, permitindo a Jasão, seu esposo, ultrapassar os seus perigos. Estes e outros feitos de Medeia, ligados à mitologia são descritos no início da peça pela Ama que começa por indiciar o conflito que se vai desenrolar entre Medeia e Jasão. Medeia apresenta alguns elementos fundamentais da tragédia, desde logo, o terrível confronto entre Medeia e Jasão, fruto da paixão e consequente traição que terá a morte como consequência, sendo esse o clímax da peça e denominador comum numa representação trágica. O coro é uma advertência para o que vai suceder e preconiza o destino das personagens. Outro traço importante da tragédia euripidiana é de introduzir um certo psicologismo às personagens, permitindo-lhes um ligeiro afastamento à soberania dos deuses, algo completamente diferente de tudo o que se produzia na altura, vemos isso na perturbação da personagem Medeia entre vingar-se do marido e salvar os filhos. 

Na obra, Jasão com a ambição que tinha pelo reino de Corinto junta-se à filha do rei Creonte, traindo a mãe dos seus filhos, Medeia. Traída e abandonada por Jasão, Medeia, preenchida por um sofrimento e tristeza tal, procura vingança exprimindo o seu ódio contra o marido e contra todos que a traíram. A protagonista simboliza a expressão da mulher contra o preconceito e a exclusão que sofria na sociedade grega, traduzida na submissão ao homem e levada a acreditar na sua inferioridade “De quanto há aí dotado de vida e de razão, somos nós, mulheres, a mais mísera criatura”. Medeia recusa o papel de vítima e de dominação do homem e contraste com a característica comum atribuída à mulher, de possuir fragilidade emocional. A sua raiva movida contra o marido provoca a morte da princesa e do rei de Corinto, bem como, o infanticídio, por força do crime cometido por ela contra os seus próprios filhos, numa crueldade e fúria sem limites, aspeto marcante das tragédias de Eurípedes. No desfecho da peça damos conta de uma certa “irracionalidade” presente no teatro de Eurípedes, movido por algo que conduz a personagem a cometer um ato incompreensível e insensato. Apesar de num momento equacionar em não cometer tamanho crime, num acesso de raciocínio perante um desgosto que também a acompanhava “Para que hei-de eu, para afligir o pai deles com a sua desgraça, infligir a mim duas vezes os mesmos males?”, acaba por o perpetuar, permitindo à cólera ultrapassar a racionalidade libertando a vingança e preservando o fundamental que procura executar na sua obstinação – causar sofrimento aos seus inimigos, vingando a sua desgraça.

Eurípedes era acusado de misoginia tendo em conta alguma aversão em relação à forma como as mulheres eram vistas, sendo estas, muitas vezes representadas como traidoras e inferiores em relação ao homem. Esta misoginia pode ser identificada quando Medeia expõe uma qualidade identificada nas mulheres transmitindo que estas não conhecem as artes nobres, mas têm sabedoria na arquitetura do mal “Além de que nascemos mulheres para as ações nobres incapacíssimas, mas de todos os males artífices sapientíssimas”. Apesar de Jasão também contribuir para essa ideia “Deviam os mortais gerar os filhos de outra maneira, e não existir o sexo feminino. E assim não haveria mal para os homens”, a conclusão da peça representa o oposto, depositando na mulher um papel de força suprema capaz de superiorizar-se ao homem, permitindo assim um olhar crítico relativo à posição feminina. Tendo em conta que as peças eram realizadas para um público masculino, a exibição do poder da mulher causou uma certa novidade no teatro grego, permitindo ao público gerar alguma condescendência perante a angústia da protagonista.

Por: Bruno Rosa Gonçalves

 

01
Mai20

Breve Estudo sobre Filosofia

mocho.jpg

Inicialmente o homem recorreu ao Mito para explicar as origens do mundo. Mito é um conjunto de narrativas e doutrinas tradicionais dos poetas, que narram o mundo, o homem e os deuses. O surgimento do mito ofereceu segurança e conforto às sociedades da antiguidade, tornando-as esclarecidas acerca do porquê das coisas. Essa consciência materializava-se numa atitude intelectual, que procurava exaltar as forças naturais, tais como, ar, água ou o fogo, em elementos de ordem divina e em atribuir à vontade dos deuses todos os fenómenos e acontecimentos do universo. Nesta época surgem narrativas que procuram explicar o nascimento e a organização do mundo a partir de forças geradoras – cosmogonia, e, narrativas que estudam a origem dos deuses a partir dos seus antepassados – teogonias. Homero e Hesíodo, nas suas obras, “Odisseia” e “Teogonia”, respectivamente, atribuem aos deuses características humanas, sujeitando-os a paixões e sentimentos, oferecendo uma certa imperfeição a toda a sua dimensão mítica. Neste sentido, outros pensadores questionaram essas mesmas explicações, indo em busca de outras respostas. Estas narrativas alimentavam as culturas e surgem como base para o pensamento filosófico.

Quando o mito é substituído pela explicação racional, surge o nascimento da filosofia. O logos é a razão que substitui o mito, suplantando a ideia de arbitrariedade, pela ideia de necessidade, onde se entende que as coisas acontecem quando tem de acontecer. O logos que, surge inicialmente através do filósofo Heráclito e depois é seguido por outros, agrava a racionalidade implicada na relação de causa e efeito das coisas. Com isto, consegue explicar a natureza - physis dentro da própria natureza, ou seja, o mundo para estes filósofos, pode ser explicado a partir de uma única substância básica, que cria tudo o resto – arque. Arquesignifica assim o princípio de tudo, investigado pelos filósofos pré-socráticos que procuraram essa explicação, observando a physis e lá encontrando a matéria-prima criadora de tudo o que existe. Os filósofos desta época reforçam a ideia de arque, para Tales de Mileto, a água era o princípio fundador, para Anaximandro era o ápeiron – quantidade infinita de matéria, Anaxímenes, julgava ser o ar, para Heráclito era o fogo e para Pitágoras o número. Todos estes filósofos abrem o caminho da ciência, uma vez que especulam sobre a realidade tentando colocar uma lógica na descoberta do mundo. A passagem do mito ao logos permitiu a explicação da realidade em toda a sua complexidade, desde o universo físico à natureza individual do homem e da sua convivência social.

Por volta do século V (a.c.) até fins do século IV (a.c.), Atenas era o centro da cultura grega, sendo esta dominada pelo pensamento sofista. Os sofistas faziam profissão da sabedoria e ensinavam-na mediante uma remuneração, a base de ensinamento era a retórica, ou seja, a arte de persuadir, orientando a sua reflexão para o homem, para a virtude e para o seu destino iniciava-se assim um novo período da filosofia grega, o chamado período antropológico, dominado pelo problema de persuadir a unidade do homem em si mesmo e com os outros homens. Sócrates contrapõe a teoria sofista, apresentando-se como ignorante, tendo neste reconhecimento a atitude certa para alcançar sabedoria. Diz Sócrates, que só quem reconhece a sua ignorância está disponível adquirir conhecimento, pois ainda não sabe e, por não saber, vai procurar, pesquisando e interrogando o mundo. Este reconhecimento leva o homem a investigar-se a si mesmo, levando-o à percepção dos seus limites e a tornar-se justo, sendo assim solidário com os outros. Esta relação entre os indivíduos, tendo em conta a liberdade de cada um para se conhecer a si próprio, é baseada na virtude e na justiça. Para Sócrates, através do raciocínio indutivo, isto é, do exame realizado a certas afirmações particulares, somos conduzidos ao conceito. O conceito, por sua vez, exprime a essência de algo em particular, aquilo que esse algo é em verdade. Este raciocínio entra no campo da ciência, que, para Sócrates é a investigação racionalmente conduzida. Ora, aproveitando esta base filosófica, os trabalhos posteriores de Platão e Aristóteles procuram responder ao quê que é a substância e a essência, iniciando um novo período filosófico denominado por período ontológico. O pensamento platónico assenta na teoria das ideias: dividindo o mundo em duas partes diferentes, o mundo inteligível, onda habita conceitos como a verdade, a razão, a lógica ou a inteligência, e o mundo sensível, ocupado pelos olhos, pela cor ou pelas luzes. Para Platão só o mundo inteligível é real, o sensível, por sua vez, apresenta-se como transitório e ilusório. Na “Alegoria da Caverna”, o filósofo descreve que o homem, a fim de conhecer a realidade, e, não viver apenas de sombras (realidade aparente, revelada pelo mundo sensível), deverá sair da caverna onde habita conhecendo o mundo exterior (inteligível, esboço da realidade). Depois de conhecer essa realidade imaterial, a função do homem será voltar à caverna (comunidade) e explicar o que observou. O ensinamento platónico manifesta-se através da dialéctica, que consiste no diálogo da alma consigo mesma, desenvolvendo-se através da investigação racional, princípio que a humanidade deve aspirar. A filosofia de Aristóteles rejeita a ideia de dois mundos distintos. Para ele, o homem conhece apenas o que os sentidos lhe mostram, a realidade é o que existe no mundo onde vivemos, tudo o que não existe nesse mundo não vale a pena ser conhecido, pois não pode ser vivido. Portanto, a felicidade deveria ser alcançada através da contemplação da natureza. Aristóteles interpretava assim o conhecimento como sendo realista em contraste com a visão platónica que o descrevia como idealista. Actualmente, a política que é vivida em países democráticos pode ser vista como sendo aristotélica, tendo em conta que, o filósofo defendia que qualquer cidadão livre se podia dedicar à actividade política, visão contrária à de Platão ao qual achava que, para se ser político era necessário um estudo contínuo, devendo existir uma dedicação à filosofia. A visão platónica explora o conhecimento e, ao mesmo tempo, estrutura o seu próprio caminho, fazendo que a partir de um ponto ‘A’ alcancemos o ponto ‘B’, a partir da busca de condições que nos façam chegar a esse objectivo. Chegamos ao ponto pretendido através desse trabalho que se revela o conhecimento. Esta visão é a matriz das sociedades modernas em busca de objectivos e novos caminhos.

Com a queda do Império Romano a filosofia entrou no período religioso, dominado pelo problema do homem em encontrar a via de reunião com deus, a fim de alcançar a salvação. A época medieval é profundamente religiosa, onde a teologia é a principal ciência e o movimento filosófico existente é o cristianismo, onde existem dogmas, isto é, crenças ou doutrinas fundamentais e indiscutíveis que, na ortodoxia cristã, significam a verdade. Crença essa, que cada um dos seus seguidores deve assumir. Num primeiro período da Idade Média, aparece Santo Agostinho, considerado como o primeiro filósofo cristão. Através da influência do pensamento platónico admite que as ideias filosóficas são reveladas por deus e são inquestionáveis (dogma), a partir destas ideias, abre-se o caminho para a distinção entre verdades reveladas (fé) e verdades humanas (razão). Para ele, a fé é dominante em relação à razão pois deus está acima de qualquer coisa. Séculos mais tarde (mais concretamente no século XII), com o aparecimento de obras de Aristóteles trazidas para o ocidente através dos árabes, abre-se caminho para a escolástica – escolas medievais, onde a filosofia era ensinada em seminários católicos. Na escolástica a razão ajuda a compreender a fé, através da interpretação da natureza. A experiência surge como uma forma segura de garantir o conhecimento. O filósofo mais influente deste período foi Tomás de Aquino que admitiu não existir contradição entre a fé e a razão, fazendo assim que a filosofia e a teologia se fundam no seu caminho para se chegar a deus. Durante a filosofia escolástica os cristãos formaram a estrutura mental dos seus conceitos tendo por base os silogismos aristotélicos, que permitiam assumir uma lógica perfeita através interpretação de duas premissas que nos levaria a uma conclusão.

Por: Bruno Rosa Gonçalves

 

24
Abr20

Camilo Castelo Branco - A Queda dum Anjo

camilocastelobranco.jpg

A vida de Camilo Castelo Branco mistura-se muito com a sua obra – as suas personagens revelam as próprias cicatrizes do autor. Este ficou órfão muito cedo (aos dez anos tinha perdido mãe e pai), teve educação provinciana (educado em Vila Real por padres de aldeia), teve decisões familiares disruptivas (abandonou esposas e filhas), foi um apaixonado fervoroso (relação com Ana Plácido) que o levou à prisão por crime de adultério. Para além desta vida rocambolesca foi ainda o primeiro escritor português a viver inteiramente da escrita. Esta era realizada essencialmente sob a forma de folhetins, novelas e romances. Como realça o professor Carlos Reis, o estilo camiliano “recupera e intensifica o processo de cativar e manipular os sentimentos do público”. As suas obras são o reflexo de uma certa influência dos românticos portugueses como Almeida Garrett e Alexandre Herculano e, muitas vezes, é considerado ultra-romântico, no entanto, traduz uma certa evolução da literatura portuguesa do romântico ao realismo, bem evidente na obra “A Queda dum Anjo”.

Para o leitor se embrenhar nas obras camilianas é importante fazer um enquadramento histórico-social na época do autor. Viveu na altura da Regeneração, que visava a evolução da sociedade para o progresso económico e industrial, com objectivos de a aproximar dos hábitos comuns de outros países desenvolvidos, tais como, Inglaterra e França. Nesse período, em Portugal, existiam duas forças políticas opostas: os absolutistas – mais conservadores, e os liberais – mais progressistas, e é neste contexto que nasce a obra “A Queda dum Anjo”.

A obra é escrita ao chamada ritmo camiliano – um narrador omnisciente, que relata o trajecto do protagonista - Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda (nome já por si cómico), numa linguagem vernácula e com diálogos representativos da comunicação de época, a descrição das peripécias apresentam um elevado tom satírico e jocoso.

Calisto é o típico erudito provinciano que guarda em si os valores de um Portugal ultrapassado, os costumes e as preocupações de um meio rural que encerrava a tradição das origens e as reservas ao progresso. Com a sua ida para a capital, no cargo de deputado na assembleia em representação da sua região, coloca esses seus princípios em choque com os de um Portugal diferente do que conhecia até então, que procurava construir uma nova mentalidade colectiva.

Numa primeira fase da história o nosso pitoresco Calisto é fiel aos seus conhecimentos clássicos e obedece às suas experiências livrescas no combate que faz com a Lisboa do século XIX, negando mesmo a realidade que observa. Esse facto faz dele um alvo fácil de chacota em pleno exercício de funções no parlamento, sendo, mesmo assim, eloquente ao ponto de adquirir reputação institucional. Camilo aproveita estas discussões parlamentares como troça de um Portugal perdido em discursos vazios e corruptos, que não enriqueciam o progresso que se fazia crer existir.

O amor – como elemento funcional nas obras de Camilo – surge como catalisador de emoções nos personagens, capaz de alterar rumo das histórias. O protagonista torna-se cada vez menos “anjo” e, como o narrador defende, cada vez mais “homem”, como tal obedece às sensações, torna-se sensível e, no fundo, deixa-se levar por esse elemento colectivo que é a cidade. Este elemento romântico na obra permite a alteração de estados nas personagens e o contraste que existe entre o ideal e o real.

A Queda dum Anjo” estabelece várias dicotomias que merecem atenção: o espaço campo/cidade, colocando em contraste a autenticidade do meio rural e a corrupção do urbano; a luta política entre absolutistas e liberais, e o amor ideal – Calisto casa-se por conveniência com a prima Teodora, em contraste com o amor verdadeiro – a paixão que o junta a Ifigénia. No fundo, Calisto Elói é humano como todos nós e é por isso que cai e deixa de ser anjo, existe assim uma evolução ao longo de toda a obra desta pitoresca personagem. O próprio género da obra sofre também uma evolução ao longo da história, inicialmente a narrativa apresenta valores mais próximos do romantismo e vai evoluindo à medida que as personagens se desenvolvem, tornando-se na parte final uma obra mais próxima dos valores mais crus e objectivos que caracterizam o realismo. Ficamos com a impressão de que, ao mesmo tempo que um anjo cai do céu e se torna homem, a própria literatura portuguesa deixa de lado as asas do romantismo e migra para o realismo, numa clara evolução de género significativa para o estudo da história literária portuguesa.

Por: Bruno Rosa Gonçalves

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D